quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

o rei dos excessos

Não é sobre o meu filho, a descrição, mas podia ser. Serve-lhe melhor do que as camisolas do ano passado que estão a ficar com as mangas atrasadas para os pulsos.

quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

o rei do mau-feitio

Ontem voltou coroado de papel dourado, cansaços olheirentos e queixas. Que berrou e birrou, que se excitou em damasia, que não parou quieto, que não obedeceu a nada, que respondeu torto a todos, que recusou a sopa, que atirou com a porta e com as cadeiras, que bateu a miúdos e pontapeou graúdos, que disse Isto não presta para nada, eu vou pedir à minha mãe para me tirar desta escola. Difícil, o meu filho transforma-se difícil nestes primeiros dias de desrotinamento dos hábitos caseiros das férias. Que concerteza devem ser ciúmes do irmão que aí vem. Eu falei e ralhei e ameacei em acompanhamento do pão e do iogurte mas depois, enquanto ele readquiria as calmas numa sesta voluntária no sofá, fiquei-me a pensar nas justificações. Que antes era por ser filho único, os egoísmos, as dificuldades em partilhar, o não saber brincar com os outros miúdos. Que agora é do irmão, os ciúmes, o ter que dividir espaços, brinquedos e afectos, a mudança que vai ser muito vasta quase aos seis anos. E tenho dúvidas com as causas, mas guardo-as para mim, que gosto muito da educadora e da auxiliar desta escola a que ainda chamamos nova e elas só me contam em tom doce e com festinhas na barriga e com muitos Não se preocupe e Não se rale a suavizar as agressividades porque eu insisto em perguntar. É que eu acho que não é disso. Ou não é só disso. É sobretudo da falta de meio. E isso não há presença ou ausência de irmão que resolva...

domingo, 4 de janeiro de 2009

domingo


Na pausa da chuva fomos achar cogumelos e migalhar meio pacote de shortcakes para os patos e pavões que atravessam do jardim do museu da cidade para as relvas do campo grande sem se atropelarem.

quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

aqui mesmo ao lado

Estragam-me o miúdo com mimos e protagonismos...

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

diferenças

Não estava demasiado preocupada, que não sou de pânicos antes das confirmações dos problemas, mas queixei-me ao médico assim que lá cheguei. Que o puto mais velho a partir das vinte semanas pontapeava vigorosamente e sem margem para confusões. E no monitor das vinte e poucas semanas, em confirmações das minhas impressões, virou e revirou, cambalhotou e pinou. Agora este, o que cá está dentro, já nas vinte e meias, nada. Nem quando me sento nem quando me deito. Nem à noite nem de manhã. Pélvico, mostrou-me o médico, o miúdo está pélvico. Mexe-se mas sem reviravoltas. Sentado e sossegado.

Será desta que me nasce um puto descansado?

terça-feira, 9 de dezembro de 2008

um livro à terça


Se eu fosse muito forte "podia mandar parar imediatamente todas as lutas e todas as guerras e as fábricas das armas transformavam-se em padarias, bibliotecas e jardins." é a página preferida no meio de muitas outras igualmente apetecíveis.

Se eu fosse muito forte, António Mota (texto) e Rui Castro (ilustração), Edições Gailivro

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

marionetados

Ontem rodopiámos num carrossel à volta do sol. Hoje reduzimo-nos aos centímetros de um polegar e pedimos ao gigante para se assumir ratinho. Voltámos com pena dos quilómetros que nos separam deles e que nos impedem de ver os outros todos.

domingo, 7 de dezembro de 2008

cool

Também da escola importa para os discursos o fixe, o bué, o muita grande e o muita giro, o iá e concerteza qualquer dia o dah se entretanto não se substituir por outro idêntico. Vou corrigindo o muita e fingindo que não oiço os outros mas confusa-me um bocadinho ouvir junto com a loconotiva, o astociamento e o preziso dos cinco anos adolescentismos que só deviam nascer daqui por uns seis ou sete anos...

sábado, 6 de dezembro de 2008

yellow submarine

Foi adiando, atrasado pelas indecisões do Eu este ano não sei o que pedir... Não por uma questão de farturas no quarto, parece-me, que eu uso de (muita?) parcimónia nesta estória das brincadeiras e fiscalizo (demais?) o que lhe habita as caixas vermelhas e os entretenimentos. Mas o miúdo nem imagina que há meias-horas seguidas de anúncios a brinquedos, folhetos nas caixas do correio para pôr cruzinhas nos preferidos, lojas grandes só para meninos e desde meados de outubro que nas poucas visitas ao supermercado grande não avançamos dos corredores das comidas e dos detergentes.

Mesmo assim, da escola, vão-me chegando os ecos de outros modos de viver e educar. Junto com os Os meninos não vestem cor-de-rosa e os Bonecas são só para meninas chegam-me Os carros da hot wheels que Sabes, mamã, são muito rápidos e chocam uns contra os outros e Os gormitis que O João Tomás leva sempre um saco cheio deles e O Faísca McQueen que O Francisco já tem a colecção toda dos carros do filme, o que é uma colecção? Acho úteis para os crescimentos, as diferenças, mas aborrecem-me muito os excessos indiscriminados e os Eu também quero que têm vindo a aumentar e que prenuncio irem proliferando desmesuradamente ao longo dos anos e das convivências até ganharem (se calhar por muito...) às práticas caseiras.

Preparei-me por isso para pedinchices de carros velozes e de bonecos ferozes de marcas conhecidas. Em vez disso recebi um Já sei, vou-lhe dizer para ele me trazer o que quiser. Mas depois encantou-se com um documentário sobre as profundezas dos oceanos e decidiu-se mesmo em cima do papel por um submarino e um cachalote. Porque eu ainda não tenho nenhum submarino nem nenhum cachalote.

Afinal enganei-me. Casa - 1 / Escola - 0. Por enquanto...

sexta-feira, 5 de dezembro de 2008


quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

carta ao pai natal

Olá Pai Natal.
Sou o Simão e tenho cinco anos. Moro em Lisboa na rua ..., no número....

Gostava que me trouxesses um cachalote e um submarino. Gosto muito de ti e gosto muito de brincar com as coisas que tu me trazes e gostei muito da tua carta.
Tenho-me portado mais-ou-menos por isso espero que me tragas prendas.
Tenho um mano na barriga da mãe que vai nascer em março. Gostava que trouxesses uma chucha e uma fofinha para o meu irmão.
Quero mandar-te muitos beijinhos e acho que te vou deixar uma prenda ao pé dos meus sapatos. Se tiveres muita fome eu ponho-te três fatias de bolo e um copo de leite e uma cenoura para o Rodolfo. Se ele tiver muita fome ponho duas ou três. O Rodolfo é muito bonzinho e muito querido. Espero que corra tudo bem na tua casa e na viagem. Gosto muito de ti. Muitos beijinhos. Simão.

Ele ditou, eu escrevi, ele assinou às cores. Depois coloriu um cachalote e um submarino numa folha e uma chucha e uma fofinha (fralda de pano) noutra. Envelopámos, selámos e enviámos para a morada de onde em abril nos há-de vir uma resposta em brasileiro a falar das estações do ano lá nos países frios.

Aos quase seis anos cada vez acredita mais nas magias.

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

manhãs

Nos fins de semana aparece-nos sempre às sete e poucos, empijamado, quentinho e despenteado para se toupeirar no meio de nós. Fala, remexe-se, cantarola, tamborila nos ferros da cama e pergunta-nos muitas vezes Mas porque é que ainda aqui estão deitados?

Nos dias de semana resmunga bocejos, nãos e Quero dormir só mais um bocadinho quando o acordo com beijinhos e cócegas às sete e muitos.

terça-feira, 2 de dezembro de 2008

natal

Dourámos e iluminámos a sala, adventámos a parede. O natal chega-nos sempre no dia um.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

um livro à segunda

Sexta e sábado fiquei reclusada por causa das febres, ontem e hoje por causa desta água que me encharca o estendal e acinzenta os humores. Vale-nos o Frederico, ratinho perfeito para estes dias descoloridos. Enquanto a família acumulava trigo e milho e centeio, o Frederico arrecadou cores, raios de sol e palavras para animar os dias tristes de inverno. Deprimida com o escuro lá de fora valho-me das provisões dele para nos animar as tardes.

Oh mamã, eu também quero ser poeta como o Frederico...

Frederico, Leo Lionni, Kalandraka

domingo, 30 de novembro de 2008

não matam mas moem

Eu acamava-me com anginas. E uma ou outra pneumonia. E constipações valentes, cheias de tosses e febres e nariz atrapalhado. Quase tudo diagnosticado e receitado no consultório do Doutor Jorge, um dos dois médicos lá da terrinha. O Doutor Jorge consultava lá em baixo, mesmo por detrás do jardim do coreto que, anos depois, continua canteirado exactamente nos mesmos feitios, com várias salas de espera entupidas de gélidos azulejos azuis quase até ao tecto e com umas cadeiras cinzentas estranhas e apetecíveis porque escorregáveis para trás. Não havia secretária nem marcações nem urgências e às vezes era preciso esperar a tarde, o que não me aborrecia porque havia sempre outros miúdos mais ou menos febris a desesperarem comigo. E era fácil entreter as horas com corridas e escondidas e deslizamentos nas cadeiras, acompanhadas das reprovações maternas Assim as pessoas vão pensar que não estás doente. O consultório era grande, castanho-escuro e povoado de esqueletos e pinturas de pacientes esventrados nas marquesas que me tolhiam as respostas aos Então onde é que dói? E o Doutor Jorge, também grande como o consultório e embatado de branco imaculado, baixava a respeitável e lustrosa careca, depois de examinações a olhos, boca, ouvidos, pulmões e barriga, e receitava-me sempre injeções. Ou supositórios. Para as anginas e penumonias e constipações que agora acho que eram gripes. E eu tinha muito medo do Doutor Jorge por causa das injeções e dos supositórios e dos esqueletos e dos quadros com sangue muito vermelho.

O meu miúdo tem viroses. Já teve uma otite, já berrou de dores nos pós-despojamentos das amígdalas e dos adenóides e já partiu o rádio. De resto tem viroses. Das que dão febre exagerada ou das que dão diarreia ou das que dão vómitos dias seguidos. Tudo viroses. Trato-as a todas com ben-u-ron, chá de flores de anis, xarope de cenoura e açucar amarelo igual ao que a minha avó me arranjava, muitos miminhos e embrulhadinhos na cama grande a noite toda, estórias e documentários de golfinhos e tartarugas-bobo debaixo da mantinha castanha no sofá. E quando a febre teima em não o deixar arrefecer a meio da noite e o pai me acha inconsequente por não querer arrastá-lo para as urgências pediátricas e ele lacrimeja que odeia o brufen eu, que nunca o deixo ir para a escola de dentes deslavados nem omitir a sopa ao jantar, sei, entranhadamente, que o miúdo vai melhorar e que não precisa de se urgenciar. Reforço os beijinhos e os embrulhadinhos, colhero-o com mais ben-u-ron, destapo-o enchaveno-o com mais chá. De manhã quase adormeço em frente à tijela azul dos cereais mas ele está fresco, cantarolante e nos ambicionados trinta e seis.

Curo-lhe as viroses com receitas caseiras. Até agora tem funcionado.

sábado, 29 de novembro de 2008

enfriorada

Não percebo esta deslógica da cadela se despelar tão abundantemente antes dos arrefecimentos do inverno.

sexta-feira, 28 de novembro de 2008

virosado

Eu percebi logo que se estava a avizinhar, que cinco anos mais uma série de meses disto já me fazem agoirar os sintomas mesmo antes deles se apresentarem. Os desapetites. Os pequenos-almoços e os jantares a terem que ser muito ajudados e brincados e mesmo assim preguiçados e enfastiados. E a vozinha Posso ir para aí embrulhar-me a ti? a meio de duas ou três noites seguidas. O Estou cansado, é melhor ir para o sofá descansar um bocadinho. Os sossegos.

Por isso já esperava o Olhe mãe ele está quase com trinta e nove de febre., quando o fui buscar à escola. Parece que para nós o fim-de-semana grande começou mais cedo...

quinta-feira, 27 de novembro de 2008

menino

Nem sequer é o usual Ai um casalinho é que é bonito ou o também comum Já tenho o menino, agora que venha a menina para ser diferente. Não. Não é isso.

Nunca me meditei mãe de meninos. Historio-me toda no feminino. Avó e mãe omnipresentes, pai ausente, tias, primas direitas e tortas, filhas de primas direitas e tortas. Os masculinos ou tinham morrido ou trabalhavam longe ou guerreavam em África ou distanciavam-se despropositadamente. Se calhar por isso só nasceram meninas na família. Habituei-me aos finais em a, achei-me parte de um qualquer destino e calculei-me também eu mãe de meninas.

E as miúdas são giras. Quer dizer, têm roupas giras e sapatos giros e collants às bolinhas e totós e trancinhas, ganchinhos e elásticos e malinhas. E depois imagina-se que crescem e partilham segredos e compras e sentimentos, se calhar até não é assim, mas imagina-se. Os miúdos têm que se engangar e sweatar para se engraçarem. E depois imagina-se que crescem e só querem sair à noite e falar de miúdas e não querem mães por perto a recomendar sopas e casacos para o frio. Tolices.

E o meu puto foi difícil. Foi muito difícil. Ainda é difícil. Agora, que a distância dos choros constantes já me trouxe segurança e que já aprendi a conhecê-lo, rosno às afirmações de Os bebés não dão trabalho nenhum. Mentira. Os bebés são todos diferentes. Há-os calmos, há-os chorões, há-os despertos, há-os encolicados. O meu chorava e esperneava e destapava-se e não dormia e berrava dias e noites e trampolinava a cama e eu tinha que ouvir Isso é fome, Isso é sede, Isso é calor, Isso é frio, Isso é das roupinhas ficarem estendidas ao luar, Isso é bruxaria, toda a gente muito sabedora a desesperar-me ainda mais a incapacidade para acalmar aquele meio metro de gente que parecia desprovido de um único gene meu. Que quando os filhos não são nossos é fácil saber tudo e opinar sem ser pedido. Afinal não era. Nem fome nem sede nem calor nem frio nem roupas luadas nem bruxaria (acho eu). Era (mau) feitio. E cólicas. E impulsividade com nome de patologia. E nenhum dos desconselhos me serviu de grande coisa. Acho que associei o masculino a isso, uma criança radicalmente diferente de mim. E a uma maternidade difícil. Mais tolices.

Por isso, ainda mais do que da primeira vez, suspirava por uma terminação em a. Lá no fundo intuía-o o mas esperava-me enganada. Quando o médico o confirmou saí do consultório a consolar-me com as vantagens. Herda a roupa do irmão, partilha o quarto, brinca às mesmas coisas. Um rapaz até dá mais jeito, a espreitar com pena os cor-de-rosas nas lojas.

Mas está bem, o puto, do que se vê. Vinte dedos, dois olhos, um nariz, uma boca e uma série de orgãos todos crescidos de acordo com as semanas. E isso é o mais importante. E agora que já não me anseio nos Será menina? estou contente. Muito contente. E já deixei de espreitar com pena para os cor-de-rosas nas lojas.

quarta-feira, 26 de novembro de 2008

Y

Coroámos com um Oh... desconsolado o Não se consegue ver bem que ainda é muito pequenino mas és capaz de ter aqui um companheiro para jogar à bola do médico na ecografia das treze semanas. O pai em receios de repetir a infância, eu porque sempre me desimaginei mãe de rapazes, ele porque uma menina é mais sossegadinha e não mexe nos meus brinquedos. Corrigi Mas está tudo bem, não está? aquela indignidade familiar, fazer ohs desconsolados a uns milímetros de manchas cinzentas a mostrarem-se-nos no monitor.
Esta segunda-feira antecipei-me É um menino, não é? É.

terça-feira, 25 de novembro de 2008

espólios dos dias

O miúdo aglomera na mesinha cor-de-laranja despojos de quase todas as saídas. Posso levar isto para casa para eu brincar, mamã? pergunta de paus, pedras, flores, folhas, moedas, conchas, partes de brinquedos e outras inutilidades. Vou inspeccionando sujidades e arestas ameaçadoras e cedendo, algumas vezes muito contragostada, que nãos a mais já eu lhe repito os dias inteiros, e tolerando, junto com caracóis, lesmas, formigas e aranhas um sem-fim de inanimados que se vão amontoando e roubando o espaço para desenhos, plasticinas e auto-estradas. E porque me lembro das minhas tristezas com uma vassoura crescida e impiedosa que me levava para o lixo os tesouros que eu resguardava de críticas debaixo da cama. E também porque lhe reconheço os genes paternos na mania do isto pode dar jeito e os maternos no hábito de guardar memórias de filmes e livros e ocorridos. E ainda porque algumas coisas acabam mesmo por dar jeito para as manualidades que muitas vezes nos preenchem os bocadinhos depois do lanche e antes do banho.

Mas o miúdo, nisto como em quase tudo o resto, é um exagerador. E quando o cor-de-laranja desaparece debaixo de quase arranha-céus de disparidades lá lhe aponto os excessos. Devolve os bichos ao quintal, cola e pinta folhas e paus, embalda no lixo o que não serve mesmo para nada e no dia a seguir começa a amealhar novas existências. Olha esta pedrinha tão bonita que parece mesmo um barquinho!

Este domingo, junto com as costumeiras conchas e pauzinhos e pedrinhas, vieram da praia um tubarão-baleia e um tubarão-raia porque coitadinhos, estavam lá sózinhos sem família e o cardume não queria brincar com eles. À noite ouviram a estória, tive que lhes desejar Uma noite feliz, não caiam da cama e não partam as barbatanas e partilharam sonhos debaixo do edredão azul dos bichos. Repartem as torradas do pequeno-almoço. E há dois dias que vão à escola, muito bem escondidinhos no bolso do bibe para os outros meninos não verem e não gozarem. E agora, enquanto a sopa de cenoura e abóbora ferve, estão ali no banho a trialogar sobre as necessidades de se esponjarem para não ficarem sujos...

Inaugurámos os amigos imaginários.