sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

notas domésticas

Não gosto de sair de casa de manhã sem fazer as camas. E sem levantar a mesa do pequeno-almoço. E sem lavar e arrumar os pires e as canecas e as colheres e as facas e a tigela azul dos cereais. E sem dar um jeitinho na casa-de-banho. E sem estender a roupa que a máquina revoluteou durante a noite e destender a que secou com as aragens da janela da casa-de-banho. E sem despejar água e azeite e farinha e fermento na cuba e carregar nos botões para haver pão quentinho às quatro da tarde. E sem lhe lavar os dentes e exigir mais um chichi. É um milagre o miúdo estar lá sempre às nove e um quarto e não ir com as meias descombinadas.

terça-feira, 20 de janeiro de 2009

notícias do exterior

Esta é a Madonna, esclareceu-o o pai, é uma cantora muito conhecida que já fez muitos discos e... os dois em zappings com apetite de documentários sobre aranhas e orangotangos. É feia. É mesmo, mesmo feia. E a música é horrível. É mesmo, mesmo horrível. Eu cá só gosto da música portuguesa do brasil, da Maria João e das clássicas. A Madonna é um blhec.

E é verdade. O miúdo gosta dos brasileiros todos que lhe ponho e que lhe canto, das infantis que desafinamos juntos e em que ele, por esquecimentos, reinventa as palavras, da Maria João, do Zeca e do Sérgio Gordinho e do Beethoven porque toca notas tão altas que até se tem medo e depois tão baixinho que quase não se ouve e de Mozart e de outros que agora não me lembro. Mas este blhec à pop comercial eu, à cautela, vou aqui reservar para quando ele me e se ensurdecer com as barulheiras da adolescência daqui por uns anos.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

notícias do interior

Às trinta semanas (mais-dia-menos-dia, que a cada ecografia aumentam-lhe ou diminuem-lhe tempos) o miúdo já se virou do avesso, encaixou a cabeça e parece apressado para nos escorregar para os braços. Teima, porém, em sossegar-se tanto que às vezes só quando me vou deitar, já em preocupações com as desagitações, é que recebo uns ligeiros remeximentos.

domingo, 18 de janeiro de 2009

adenda

Não tenho ilusões e muito menos pretensões acerca disto, que os miúdos crescem e têm feitios e vontades e gostos deles e as educações podem influenciar mais ou menos os adultos em que se vão desfigurar. Andamos por museus e exposições e bibliotecas tal como por parques infantis e jardins e cinemas e supermercados quando os armários da cozinha se esvaziam. E de tudo ele há-de memorizar alguma coisa consoante os percebimentos do que vê, a coisa em si e os interesses pessoais, que estão lá e não sei se se educam. Ontem, por exemplo, não sei o que mais lhe agradou: se os quadros da Paula, se os quadrados de alecrim e salva e tomilho e madressilva que cheirámos a seguir na horta mascarada de jardim do lado de fora ou se o camião dos reciclados que junto ao portão do palácio e com grande aparato consumia papéis e cartões de um contentor enterrado. Foi, aliás, o que desenhou quando chegou a casa, que o miúdo agora desenha sempre o que viu e o que quer pedir ao Pai Natal no próximo dezembro e as chitas e os pinguins e os cangurus bebés dos documentários. Da escola chegam-me, contíguas às queixas do mau feitio, da agressividade e da desobediência, os elogios às participações nas conversas e às variedades dos idos e vistos. Eu cá não sei se o miúdo fica nutrido de sabedorias e culturas com estes passeios de fim-de-semana e de fim-de-tarde . A única coisa que espero é que as práticas de menino lhe produzam hábitos e interesses em crescido. E, claro, memórias de bons momentos em família. Se isto acontecer já fico muito contente.

sábado, 17 de janeiro de 2009

paula rego

No penúltimo dia fomos ver a Paula Rego a Algés.

sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

meia, liga, meia, liga, meia...

Com uma das lindíssimas lãs da Ana, muitas páginas de instruções e alguns videos começo a tentar encarreirar um casaquinho para o miúdo que já não me deixa caber nas roupas quentes dos outros invernos.

quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

o rei dos excessos

Não é sobre o meu filho, a descrição, mas podia ser. Serve-lhe melhor do que as camisolas do ano passado que estão a ficar com as mangas atrasadas para os pulsos.

quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

o rei do mau-feitio

Ontem voltou coroado de papel dourado, cansaços olheirentos e queixas. Que berrou e birrou, que se excitou em damasia, que não parou quieto, que não obedeceu a nada, que respondeu torto a todos, que recusou a sopa, que atirou com a porta e com as cadeiras, que bateu a miúdos e pontapeou graúdos, que disse Isto não presta para nada, eu vou pedir à minha mãe para me tirar desta escola. Difícil, o meu filho transforma-se difícil nestes primeiros dias de desrotinamento dos hábitos caseiros das férias. Que concerteza devem ser ciúmes do irmão que aí vem. Eu falei e ralhei e ameacei em acompanhamento do pão e do iogurte mas depois, enquanto ele readquiria as calmas numa sesta voluntária no sofá, fiquei-me a pensar nas justificações. Que antes era por ser filho único, os egoísmos, as dificuldades em partilhar, o não saber brincar com os outros miúdos. Que agora é do irmão, os ciúmes, o ter que dividir espaços, brinquedos e afectos, a mudança que vai ser muito vasta quase aos seis anos. E tenho dúvidas com as causas, mas guardo-as para mim, que gosto muito da educadora e da auxiliar desta escola a que ainda chamamos nova e elas só me contam em tom doce e com festinhas na barriga e com muitos Não se preocupe e Não se rale a suavizar as agressividades porque eu insisto em perguntar. É que eu acho que não é disso. Ou não é só disso. É sobretudo da falta de meio. E isso não há presença ou ausência de irmão que resolva...

domingo, 4 de janeiro de 2009

domingo


Na pausa da chuva fomos achar cogumelos e migalhar meio pacote de shortcakes para os patos e pavões que atravessam do jardim do museu da cidade para as relvas do campo grande sem se atropelarem.

quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

aqui mesmo ao lado

Estragam-me o miúdo com mimos e protagonismos...

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

diferenças

Não estava demasiado preocupada, que não sou de pânicos antes das confirmações dos problemas, mas queixei-me ao médico assim que lá cheguei. Que o puto mais velho a partir das vinte semanas pontapeava vigorosamente e sem margem para confusões. E no monitor das vinte e poucas semanas, em confirmações das minhas impressões, virou e revirou, cambalhotou e pinou. Agora este, o que cá está dentro, já nas vinte e meias, nada. Nem quando me sento nem quando me deito. Nem à noite nem de manhã. Pélvico, mostrou-me o médico, o miúdo está pélvico. Mexe-se mas sem reviravoltas. Sentado e sossegado.

Será desta que me nasce um puto descansado?

terça-feira, 9 de dezembro de 2008

um livro à terça


Se eu fosse muito forte "podia mandar parar imediatamente todas as lutas e todas as guerras e as fábricas das armas transformavam-se em padarias, bibliotecas e jardins." é a página preferida no meio de muitas outras igualmente apetecíveis.

Se eu fosse muito forte, António Mota (texto) e Rui Castro (ilustração), Edições Gailivro

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

marionetados

Ontem rodopiámos num carrossel à volta do sol. Hoje reduzimo-nos aos centímetros de um polegar e pedimos ao gigante para se assumir ratinho. Voltámos com pena dos quilómetros que nos separam deles e que nos impedem de ver os outros todos.

domingo, 7 de dezembro de 2008

cool

Também da escola importa para os discursos o fixe, o bué, o muita grande e o muita giro, o iá e concerteza qualquer dia o dah se entretanto não se substituir por outro idêntico. Vou corrigindo o muita e fingindo que não oiço os outros mas confusa-me um bocadinho ouvir junto com a loconotiva, o astociamento e o preziso dos cinco anos adolescentismos que só deviam nascer daqui por uns seis ou sete anos...

sábado, 6 de dezembro de 2008

yellow submarine

Foi adiando, atrasado pelas indecisões do Eu este ano não sei o que pedir... Não por uma questão de farturas no quarto, parece-me, que eu uso de (muita?) parcimónia nesta estória das brincadeiras e fiscalizo (demais?) o que lhe habita as caixas vermelhas e os entretenimentos. Mas o miúdo nem imagina que há meias-horas seguidas de anúncios a brinquedos, folhetos nas caixas do correio para pôr cruzinhas nos preferidos, lojas grandes só para meninos e desde meados de outubro que nas poucas visitas ao supermercado grande não avançamos dos corredores das comidas e dos detergentes.

Mesmo assim, da escola, vão-me chegando os ecos de outros modos de viver e educar. Junto com os Os meninos não vestem cor-de-rosa e os Bonecas são só para meninas chegam-me Os carros da hot wheels que Sabes, mamã, são muito rápidos e chocam uns contra os outros e Os gormitis que O João Tomás leva sempre um saco cheio deles e O Faísca McQueen que O Francisco já tem a colecção toda dos carros do filme, o que é uma colecção? Acho úteis para os crescimentos, as diferenças, mas aborrecem-me muito os excessos indiscriminados e os Eu também quero que têm vindo a aumentar e que prenuncio irem proliferando desmesuradamente ao longo dos anos e das convivências até ganharem (se calhar por muito...) às práticas caseiras.

Preparei-me por isso para pedinchices de carros velozes e de bonecos ferozes de marcas conhecidas. Em vez disso recebi um Já sei, vou-lhe dizer para ele me trazer o que quiser. Mas depois encantou-se com um documentário sobre as profundezas dos oceanos e decidiu-se mesmo em cima do papel por um submarino e um cachalote. Porque eu ainda não tenho nenhum submarino nem nenhum cachalote.

Afinal enganei-me. Casa - 1 / Escola - 0. Por enquanto...

sexta-feira, 5 de dezembro de 2008


quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

carta ao pai natal

Olá Pai Natal.
Sou o Simão e tenho cinco anos. Moro em Lisboa na rua ..., no número....

Gostava que me trouxesses um cachalote e um submarino. Gosto muito de ti e gosto muito de brincar com as coisas que tu me trazes e gostei muito da tua carta.
Tenho-me portado mais-ou-menos por isso espero que me tragas prendas.
Tenho um mano na barriga da mãe que vai nascer em março. Gostava que trouxesses uma chucha e uma fofinha para o meu irmão.
Quero mandar-te muitos beijinhos e acho que te vou deixar uma prenda ao pé dos meus sapatos. Se tiveres muita fome eu ponho-te três fatias de bolo e um copo de leite e uma cenoura para o Rodolfo. Se ele tiver muita fome ponho duas ou três. O Rodolfo é muito bonzinho e muito querido. Espero que corra tudo bem na tua casa e na viagem. Gosto muito de ti. Muitos beijinhos. Simão.

Ele ditou, eu escrevi, ele assinou às cores. Depois coloriu um cachalote e um submarino numa folha e uma chucha e uma fofinha (fralda de pano) noutra. Envelopámos, selámos e enviámos para a morada de onde em abril nos há-de vir uma resposta em brasileiro a falar das estações do ano lá nos países frios.

Aos quase seis anos cada vez acredita mais nas magias.

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

manhãs

Nos fins de semana aparece-nos sempre às sete e poucos, empijamado, quentinho e despenteado para se toupeirar no meio de nós. Fala, remexe-se, cantarola, tamborila nos ferros da cama e pergunta-nos muitas vezes Mas porque é que ainda aqui estão deitados?

Nos dias de semana resmunga bocejos, nãos e Quero dormir só mais um bocadinho quando o acordo com beijinhos e cócegas às sete e muitos.

terça-feira, 2 de dezembro de 2008

natal

Dourámos e iluminámos a sala, adventámos a parede. O natal chega-nos sempre no dia um.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

um livro à segunda

Sexta e sábado fiquei reclusada por causa das febres, ontem e hoje por causa desta água que me encharca o estendal e acinzenta os humores. Vale-nos o Frederico, ratinho perfeito para estes dias descoloridos. Enquanto a família acumulava trigo e milho e centeio, o Frederico arrecadou cores, raios de sol e palavras para animar os dias tristes de inverno. Deprimida com o escuro lá de fora valho-me das provisões dele para nos animar as tardes.

Oh mamã, eu também quero ser poeta como o Frederico...

Frederico, Leo Lionni, Kalandraka