domingo, 14 de fevereiro de 2010

mais barriga que olhos

Entre um cesto atestado de brinquedos e outro colorido de frutas, sem vacilações, o miúdo pequeno escolhe o segundo.

dentes de rato

Assim que o libertamos no chão o miúdo pequeno gatinha velozmente até à cozinha, estica-se até conseguir entornar o cesto da fruta, instala-se confortavelmente nos quadrados azuis e brancos e fica, calado e sossegado, a roer pêras, maçãs, mangas, bananas, laranjas e limões.

sábado, 13 de fevereiro de 2010

francisco simões


Só as conhecia das capas dos amores felizes (lá no fim, que depois de muito googlar só consegui encontrar estas) e do metro do campo pequeno. Hoje, mesmo no último dia, confirmei que as meninas-mulheres do Francisco Simões são lindas. Ficam-me só as penas de não as poder festejar, que partilho com os meus miúdos esta vontade de ver com os dedos, e de não as poder guardar nas memórias da máquina, que estas únicas duas fotografias foram desfocadas do frio lá de fora pela montra da galeria.

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

ais

À próxima pessoa que me disser Ai que lindo!, Ai que engraçado!, Ai eles são tão giros nesta fase!, Ai tenho tantas saudades de quando os meus filhos eram pequeninos e gatinhavam e estavam a aprender a andar!, peço a morada e despejo lá a criança aventureira e mexilhona cinco tardes seguidas.

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

museu do azulejo


Um destes domingos abrigámo-nos da chuva no Museu do Azulejo.

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

vezes dois

Não, não é mais difícil ser mãe de dois do que só de um. Para além dos amores duplicam-se os cansaços, a falta de tempo e a roupa suja no cesto. Tudo o resto é igual.

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

paralelas

O pequeno incisivou os dois dentes de baixo já há uns meses e agora somou-lhes, de uma só vez, quatro em cima.
O grande incisivou os dois dentes de baixo já há uns meses, tem vários a balançar ameaças de quedas, um espaço em baixo muito útil para assobiar desafinações e germinam-lhe lá para trás uns princípios de molares.

O pequeno começa a dizer palavras simples e mais-ou-menos compreensíveis.

O grande já lê e escreve aglomerados de palavras como Eu vi a rola no ramo. e É a cadela da Amélia. e O tio deu uma papoila e uma túlipa à tia.

O pequeno guincha queixas quando o outro o agarra e o empurra enquanto gatinha e oscila tentativas de andar agarrado ao sofá. E chora procuras de adultos quando o irmão lhe reprime as aventuras Não, não podes desarrumar os livros., Não, não podes enfiar os dedos nas tomadas., Não, Joaquim, não, não puxes o rabo à cadela.
O grande grita Oh mãe olha ele, tira-o lá daqui., quando o outro lhe tenta comer os legos miúdos e rasgar os desenhos.

O pequeno põe tudo na boca.
O grande está sempre de dedos na boca a roer as unhas e a abanar os dentes velhos.

O pequeno devora sopa, segundo prato, fruta, às vezes ainda iogurte e bolacha maria.
O grande molenga em frente à sopa e ao segundo prato e só acelera na fruta e na sobremesa. É preciso repetir muitas vezes Come Simão. e Despacha-te Simão. e às vezes ainda colherar-lhe os restinhos.

Dou banho ao pequeno.
Ainda tenho que ajudar o grande a esponjar as costas e a esfregar o cabelo.

O pequeno gatinha pelo chão da sala.
O grande gatinha pelo chão da casa toda.

O pequeno desarruma tudo.
O grande desarruma tudo.

O pequeno palra e chora uns bocadinhos.
O grande grita e guincha e fala e canta e faz barulho o tempo todo.

O pequeno ignora-me os nãos.
O grande só ouve o segundo ou terceiro não.

Durante uns bocadinhos brincam e gargalham juntos.

E eu que pensava que quase seis anos de permeio implicavam aquisições e desenvolvimentos desencontrados...

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

pedagogias ao contrário

Quase todos os dias chegavam os recados na caderneta a acusar as distracções e as conversas imparáveis acompanhados da mochila sobrecarregada pelos trabalhos que deviam ter sido rematados na sala. O professor vazou as estratégias e as ameaças frequentes nestas desatenções: mudá-lo de trás para a frente e da frente para o meio, acompanhá-lo da menina mais sossegadinha e tímida, desacompanhá-lo, reprimir-lhe o intervalo, antever-lhe um futuro como arrumador de carros. Eu esgotei os esclarecimentos e os argumentos Se não ouves o que o professor explica não aprendes e depois não consegues fazer os trabalhos., e Já viste, íamos à biblioteca e agora em vez disso tens que ficar aqui a acabar essas seis fichas que devias ter feito lá na escola. Nada lhe afrouxava as conversas. Quando estávamos todos a desistir da tarefa o professor virou os ralhos do avesso e avisou os vinte e três coleguinhas Quem falar com o Simão aqui na sala não vai ao intervalo.

Parece que o miúdo agora se elevou a um dos melhores alunos e em vez de queixas carrega para casa excelentes e muito bons nas fichas.

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

a aprender

A ensiná-lo a jogar às damas vasculho as memórias de pequena que me fui esforçando por apagar ao longo dos anos e não consigo encontrar adultos a companheirarem-me em jogos nem de mesa nem de chão e ar livre. Não é totalmente inadequado às alturas, que antes não se impunha como necessidade os pais gastarem tempos a entreter-se com os filhos, mas no meu caso também não havia pessoas do meu tamanho com quem dividir pães com manteiga, birras, segredos e brincadeiras. Esbarro por isso muitas vezes nas dificuldades das regras, mal-explicadas para incipientes no folheto que acompanha o tabuleiro e as peças. A ver se escrevo como jogar às damas no google para saltarmos casas na diagonal sem dúvidas e comermos peças (e damas?) sem trafulhices. Entretanto vou-o deixando somar mais vitórias do que derrotas, que só se aprende a gostar do que não nos é demasiado difícil.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

maçãs, hortelãs, papoilas e bolas de berlim

Eu ia escrever sobre a primeira vez. Podia ter-me perdido dela algures no labirinto das memórias tal como se têm ido dissipando outros apêndices e outras desimportâncias. Mas guardo-a focada e com cores nítidas. O miúdo crescido devia somar ali um número vago de meses entre os doze e os vinte e quatro e eu balançava-me entre o desconsolo pelo que não conseguia fazer e o desespero pelo que ele (me) fazia na tentativa de não perder nem o centro nem os (poucos) equilíbrios. Que o meu filho mais velho foi o maior treino de maternidade que alguém pode adquirir numa experiência de único. Uma tarde qualquer desabafei as mágoas e as frustrações na casa recente de uma amiga sem filhos, estupefacta com as arrumações que a ausência de crianças permite e zangada com as asneiras e os barulhos sempre a estorvarem-nos os diálogos. Invejei-lhe especialmente a biblioteca, uma assoalhada toda emprateleirada até ao tecto de livros, um sofá confortável ao pé da janela a sugerir leituras em sossego e silêncio. Leva um livro, disse-me ela. Recusei-me. O miúdo sempre desinquietado, a falta de tempo, os sonos retardados, Mas custa-me tanto não ler... Estendeu-me Os Pássaros de Seda, Leva este, vais ver que vais gostar. A Rosa Lobato de Faria? Ah, não, não me parece. Nunca fui fã dos festivais da canção e embirrava com aquele tom de tia que os papéis da televisão tanto insistiam em ribaltar, Nem sabia que ela escrevia livros, não devo gostar, não simpatizo com ela. Leva. Levei. Abri-o assim a contragosto, depois de deitar o pequeno, naqueles minutos que precedem o adormecer. E não consegui parar de o ler. E fartei-me de chorar. E depois reli-o e voltei a lê-lo. E voltei a chorar. E quando um livro nos faz isto é porque é bom. Muito bom.

E ia escrever sobre como ali, numa das prateleiras da sala, estão quase todos. Têm ido chegando, nos natais e nos anos e quando calha. Falham-nos só os dois últimos mais A Trança de Inês que emprestámos à tia louca do Mário que acredita em espíritos e fantasmas e que o deve ter deixado em parte incerta nalguma viagem a outra dimensão em que se encontra com desaparecidos e falecidos. Detesto emprestar livros. Nunca voltam.

E ia ainda escrever sobre como quando liguei a net anteontem e a vi sorridente, de camisa azul e cabeça baixa, pensei Boa! Deve ter saído mais um livro!, antes de ler o morreu. Morreu? Não, não pode ter morrido. E agora? A morte é para sempre. É essa a grande maldade - a morte é mesmo para sempre.

E ia ainda dizer que enquanto o pequeno Joaquim crescia dentro de mim pensei muitas vezes Se for menina é Rosa. Por causa desta Rosa. E do Rosa, minha irmã Rosa, da Alice. Que escolher para os filhos nomes de pessoas de quem se gosta ainda é melhor do que escolher só nomes de que se gosta.

Mas depois googlei-a mais uma vez, à procura de ânimos para começar a escrever e cruzei-me com isto. E está cá tudo. Eu não preciso de acrescentar nada nem explicar nada porque está aqui tudo. É por causa disto que eu gosto ( e não, não quero dizer gostava, que a morte tira-nos as pessoas mas não os afectos) tanto dela.

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

dias luminosos

Uma das coisas boas da casa cor-de-rosa é a maneira como, logo às oito da manhã, o sol nos começa a habitar as assoalhadas todas e a enxotar os desconsolos e as preguiças das noites.

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

dias descoloridos

Ainda não consegui destrinçar os porquês exactos. Não que isso tenha grande importância. Mas eu gosto sempre de perceber os porquês.

Se calhar foi da entrevista na noite anterior, mesmo no finzinho do bacalhau gratinado com espinafres. Eu a colherar os últimos bocadinhos para a pequena boca desgostosa com as recusas de molho bechamel e a ralhar Simão, despacha-te, que já todos acabámos, só faltas tu., e a menina da Marktest a perguntar por Senhores com mais de 45 ou senhoras com mais de 35 que não se importassem de responder, é muito rápido, são só uns minutinhos. Sim, não me importo, que não deve ser fácil estar num call center a ocupar com inutilidades as famílias nas horas em que mais se atrapalham com os banhos, os jantares, as birras do Não quero ir dormir ainda, as estórias para contar e as cozinhas para arrumar. Deixei o pequeno a roer alegremente uma maçã, abri os olhos ao maior para se despachar e lá fui dizendo que não, não bebo cerveja, não, quase não vou a centros comerciais, anúncios? Sim, lembro-me de alguns. E então a menina, depois de me questionar hábitos alimentares, lojas de electrodomésticos e supermercados, pediu-me o nome, a idade, as habilitações e a profissão. O costume nestas coisas. Profissão?, hesitei. Eu sei lá. Limpo, arrumo, cozinho, vou às compras, cuido, brinco, leio estórias, jogo, coso os descosidos e os rasgados. Dona-de-casa? Doméstica? Ama? Mãe? Mãe é uma profissão? Rematei a dúvida com a actividade com que estou colectada nas finanças, ainda sorri com o já habitual Ah mas não tem nada a ver com a licenciatura que tirou!, aceitei os Obrigadas e os simpáticos Felicidades para os seu meninos e voltei ao bacalhau de um e à maçã do outro. Mas a mentira ficou ali a borboletar, a incomodar-me os pensamentos e as tarefas.

Ou então foi do telefonema da Mê. A Mê é uma pequena amiga, que se há grandes amigos também tem que haver pequenos. Na verdade a Mê é só uma casualidade por proximidade de moradas, mas ela acha que é minha amiga. E isso incomoda-me, que não sei como desempatar o mal-entendido. Deviamos transportar para a idade adulta as facilidades do Não gosto de ti, já não sou tua amiga, dos seis anos, que resolviam muitos problemas sem mais delongas nem embaraços. Inunda-me o mail de disparates tipo O que fazer em caso de sismo e Envie isto para dez pessoas e seja feliz para sempre e liga-me de vez em quando nas horas de expediente quando se apanha desacompanhada lá no escritório para falar mal dos pais e irmãos e da legião de gatos de rua a quem serve jantares todos os fins-de-tarde. E coabita com uma cadela e três gatas, o que agora dava uma conversa infindável, a relação da Mê com os bichos, e como muitas pessoas têm bichos para os prender com a desculpa do Ai, amo-o tanto e isto é o melhor para ele, mas fica para outra vez. Que eu agora quero exorcisar os porquês. Hei-de voltar à Mê num post qualquer. Se me apetecer. Queixei-me. Eu queixo-me pouco, mas ela perguntou-me pelos miúdos. E eu, com a mentira da noite anterior ainda a incomodar-me o dia e com o miúdo pequeno aos pés a esvaziar e a provar todo o conteúdo da minha mochila, queixei-me. Da falta de tempo, do sono, do cansaço, do miúdo maior sempre a precisar-me para tudo, do miúdo pequeno a tentar comer os fios dos candeeiros e a ração da cadela e a desarrumar a casa toda em segundos. Oh, não te podes queixar, tu tens tanta sorte, interrompeu-me a Mê, e eu ouvi-lhe, ali claramente na sorte, uns decibéis de que não gostei nada. Ainda pensei que estava a perceber mal, mas ela continuou Tens um marido, tens filhos, tens uma casa gira, tens uma vida boa, podes estar em casa com os teus filhos, o que é que tu queres mais?, e aí eu ouvi mesmo nitidamente sentimentos que nem vou aqui enumerar porque não gosto nada deles. Tens isto, tens aquilo, tens aqueloutro, continuou ela. E eu não tenho nada disso, subentendi eu, e queria ter. Apeteceu-me chorar. Eu quase nunca me queixo. Conto até cinquenta, penso que tudo podia ser pior, penso que há desgraças e doenças e sofrimentos a sério. Eu queixo-me mesmo muito pouco. Por isso aquilo doeu-me muito. Bastava um Tens razão, deve ser cansativo e frustrante, que eu ficava toda contente e se calhar até parava logo de me queixar e contava-lhe como o miúdo grande já lê tanta coisa e como o miúdo pequeno acena adeuses e chama nanana a todas as comidas. Fui salva dos tens por uma colega que lhe entrou pela sala. Para a próxima deixo o pequeno Joaquim puxar vigorosamente o fio do telefone. Ou mando a Mê para um sítio feio. Eu nunca mando as pessoas para sítios feios e tenho que me habituar a mandar para sítios feios quem merece.

Ou se calhar foi do TPC no livro de Estudo do Meio do miúdo. Uma família rodeada de actividades, Liga cada tarefa ao membro da família que a realiza na tua casa. Sem hesitar o miúdo riscou o pai ao conserto das tomadas e das lâmpadas, riscou-se a ele ao pôr a mesa e a seguir preencheu-me de traços. Amarelo, cor-de-laranja, verde alface, azul claro, roxo como tu gostas muito mamã, cor-de-rosa, azul escuro, vermelho. Sacos das compras, fogão com tachos a fumegar, aspirador, tábua e ferro de engomar, espanador e pano do pó, bebé a tomar banho, menino a edificar legos, estendal de roupa, não sei se mais algum de que agora não me lembro. Fiquei ali a olhar para aquele arco-íris, a mentira da noite anterior a pairar, os tens da Mê a ecoar. Está bem, não está, mãe? Está,filho, está.

Ou se calhar foi só do cansaço. Da roupa suja sempre a transbordar do cesto, do sono, das caixas ainda por esvaziar, do estar sempre a trancar as portas dos armários para o miúdo pequeno não me espalhar a vidinha toda, dos quatro dentes de cima a perturbarem-lhe a gengiva e as noites, dos Mãe, jogas comigo à bola?, Mãe, apertas-me os atacadores?, Mãe, ajudas-me? tão constantes, do tempo a correr e de me sobrarem sempre coisas por fazer. E de nunca ter meias-horas só minhas. Ou de tudo junto. Cheguei aqui e inaugurei o ano com um derrame desordenado de frases zangadas e queixosas sobre tudo o que queria fazer e não consigo fazer e sobre tudo o que não queria fazer e tenho que fazer todos os dias.

No dia a seguir reli-me. E apaguei-me. Que o url deste blogue não é Tudo o que não faço por causa dos meus filhos. E o template não é cor-de-rosa mas também não o quero cinzento-escuro. Há muitos dias cinzentos. Mas esses faço por os esquecer e não os quero perpetuar aqui.

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

a primeira noite

Passado um bocado entranhei o silêncio, desamparei a caixa e comecei a procurá-lo. Acompanham-me seis anos de alvoroços, o sossego tornou-se um parente distante pouco assíduo nas visitas e nas permanências. Ou é o maior a cantarolar e a barulhar as lutas dos Bionicles e as viagens dos tractores e autocarros e a perguntar Mãe, porque é que as folhas das coníferas não caem?, Mãe, o que é a alma?, Mãe, os quivis têm asas ou não?, Mãe, adoro-te., ou é o menor a guinchar pedidos de bolachas e de pão e de tudo o que nos fareja nos pratos e a chorar por colos e mimos e a bater com os brinquedos no chão da sala ao mesmo tempo que rasteja tentativas de gatinhar até à cadela. Que eu nunca imaginei que na maternidade uma das saudades maiores fosse para os silêncios. Às vezes, os dois já adormecidos depois da maratona final dos banhos, jantares, leites, dentes, estórias, beijinhos e embalos, interrompo as azáfamas apressadas do lavar a loiça e arrumar e ligar a máquina e estender a roupa e adiantar o jantar de amanhã para me sentar imóvel no sofá só a ouvir a ausência do ruído. O conforto da ausência do ruído. Por isso, quando entranhei a calma, desisti das tentativas de ordenar copos, pratos, taças e chávenas nos armários ainda pouco familiares e chamei-o Simão? Onde estás querido?. Que o pequeno dormia, desregulado e arreliado com as mudanças e o jantar desalinhado, mas o grande tinha passado as horas a pulular entre os caixotes, a desajudar, a perguntar É hoje que vamos cá dormir? e em reclamações Não consigo encontrar os meus lápis para desenhar. e Onde é que há comida?. Por isso comecei a procurá-lo. Calculei-o nos arrumos do sotão, esconderijo preferido quando vínhamos exasperar-nos com as demoras no soalho e nas pinturas e preparei-me para o Búúúúúú estrondoso (cá está, a falta do silêncio...) com que fingíamos sempre atemorizarmo-nos muito. Achei-o estendido no escuro do meu quarto mesmo debaixo da janela grande. Já viste que tens o céu aqui dentro do teu quarto, mãe? Espreitei lá para cima, para os pontinhos pequeninos a piscapiscar e para uma lua redonda e generosa a deixar-se esconder e descobrir por nuvens velozes. Ainda pensei nos copos em cima da bancada e nas portas escancaradas do armário mas deitei-me ao lado dele, na madeira empoeirada e manchada de branco. Devagarinho comecei a esquecer-me das caixas por chegar e por esvaziar, da irritação com a tinta no soalho antigo, do cimento na tijoleira lá de fora, do fogão preguiçoso e pouco cooperante, dos pedreiros molengões e desastrados, das poucas horas de sono para conseguir limpar duas casas e carregar tudo, do Eu detesto mudanças repetido de cinco em cinco minutos. Deitei-me ao lado dele, na madeira antiga e suja, debaixo daquele rectângulo de claridade e, acho que pela primeira vez na vida, senti-me em casa.

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

em mudanças

Tenho a vidinha toda encaixotada. Volto assim que nos conseguir desempacotar.

domingo, 22 de novembro de 2009

sábado, 21 de novembro de 2009

entre a doença e a vacina, venham (as pessoas) e escolham

Desgosto dos pânicos à toa e desconto das informações os exageros jornalísticos mas não deixo de me indecisar entre a doença e o prometimento da cura. Vacino-os ou desespero pelos sintomas?

falso alarme

Assim que a vi murchinha e desbotada a sair do portão verde ao colo da mãe diagnostiquei logo o fim-de-semana. Chuva na rua, febre em casa, já está. Logo a Miriam, a grande amiga dos intervalos, com quem divide as metades de pão caseiro que lhe ensaco para o lanche e com quem joga com os berlindes comprados na loja do chinês ali da esquina e com quem recolhe as sementes mágicas que se vão acumulando numa caixinha de fósforos Porque dão sorte, mãe, às vezes, não dão sempre, mas dão às vezes. E depois a mãe da Maria, enquanto eu iogurtava a boca pequena para entreter as esperas, citou-me os nove dias em casa, as aflições dos quarenta graus que não definhavam nem com medicamentos nem com banhos, as fraquezas e os emagrecimentos. E a D. Arlete, cuidadora das entradas e saídas, comunicou os seis ou sete meninos da turma a falharem o éle e o sete. Já está, preparei-me, que isto andava a correr bem, narizes desentupidos, testas frescas, digestões escorreitas, alguma vez havia de ser. Por isso quando a meio da noite me irrompeu pelos sonhos com lamentos de dores de cabeça e frios preparei-me para o pior. Quase trinta e nove, já está. Mas depois o paracetamol mais a canja mais o xarope de cenoura mais os sonos aquietados no sofá mais os livros mais o jogo das lagartinhas mais os beijinhos Coitadinho do meu menino que está doentinho desalentaram os calores e hoje já estava climatizado e em preocupações Ensinas-me o éme? É que se o professor o deu ontem quando faltei depois chego lá na segunda e não sei.

Afinal parece que ainda não foi desta.

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

fármacos

Quando em cima do frigorífico se agrupam ao Vigantol, ao Aero-Om, ao Nasomet e ao Ribomunyl costumeiros o Brufen, o Ben-u-ron e o termómetro isso significa noites ainda menos dormidas, silêncios e ausências dos Não andes a correr dentro de casa e os o-que-fazer-amanhã todos desconsiderados.

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

sete meses

Ainda mama.

menus

Abóbora. Cenoura. Alface. Courgette (que com certeza já se aportuguesou para curgete). Chuchu. Nabo. Brócolos. Alho francês. Feijão verde. Aipo. Coentros. Couve portuguesa. Nabiças. Couve-flor. Agriões. Tudo adoçado com batata-doce e às vezes com pêra. Falham-lhe ainda os espinafres e as beringelas, adiados pelos paladares pouco agradados pelas bocas pequeninas.

Pêra. Banana. Maçã. Pêssego. Melão. Meloa. Ontem os dióspiros destronaram as favoritas mangas. E acho que o vou estrear nas castanhas e nos marmelos, que também merece o outono.

Iogurtes. Sem fruta, com fruta. Sem bolachas, com bolachas desmanchadas em pó na um, dois, três. Muitos iogurtes.

Frango. Perú. Pescada. Dourada. Tudo ralado e misturado na sopa, mas, por um destes dias, açordo-lhe o peixe.

Poucas papas lácteas. Papas líquidas só em necessidades longe de casa. Boiões não. Desgosto dos preços e duvido das vitaminas e das propriedades.

Percebi ainda antes do segundo que isto é assim mesmo, cada médico sua sentença. Seja pelos anos, pelas geografias ou pelas opiniões, desencontro-me cada vez mais com as primeiras opções. O outro começou com as sopas e eu vagarava uma semana entre cada novidade. Este começou com as papas e eu intervalo só quatro dias entre cada novidade, que duplicar ementas e lavar o dobro dos tachos rouba-me tempos e boas disposições. E exagero nos verdes enquanto não nascem os Não gosto de couves e os Isto é um blhec. No outro adiei os pêssegos mais os melões mais as uvas mais sei lá quantos, a voz da médica Que eles fazem facilmente alergias a certos frutos mais sumarentos. Neste só protelo a laranja, os quivis e os morangos. Com o outro insisti nos iogurtes azedos Porque os bebés só podem comer iogurtes naturais e ainda hoje mastiga com desagradados até os coloridos com smarties. Neste demiti-me dos fundamentalismos e acho que ele engolia todos os batidos açucarados que lhe colherasse. E já guincha indignações para os aromas do irmão. Falham-me muito as memórias mas quase de certeza lucra muito mais variedades nos menus do que o irmão lucrava nestes meses. A ver se com um ano nos conjuntamos todos à mesa do jantar.

Cada vez ignoro mais os médicos.

(Nunca pensei usar aqui a caixa para lhes descrever percentis e afins, que das magrezas e medianias nos centímetros hão-de dar contas os livrinhos azuis que a pediatra vai completando. Mas pesam-me nas consciências os poucos relatos das primeiras existências do menor...)