terça-feira, 26 de outubro de 2010

Gil e Júlia

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

todo o tempo do mundo

É Eloisa sem agá, respondeu ela à enfermeira naquelas palavras com muito mais mel e calor do que as nossas. Quarenta e uma semanas, uma bebé dorminhoca e lá muito em cima, uma linha lisinha no sítio das contracções. E você, princesa?, perguntou a enfermeira para a outra cadeira, ataviada de soro e gemidos. Vinte e nove semanas, uma menina desassossegada e apressada, uma linha a ziguezaguear prematuridades e riscos. Ficámos ali as três, com os riscos a encherem o papel e com o tum-tum-tum dos pequenos corações a assegurarem existências e saúdes. Nossa, você vai ter gémeos? Confirmei de cor, já sem pensar nas respostas. Nossa, mas aqueles dois meninos lá fora não são seus? Voltei a confirmar de cor. Nossa, mas o mais novinho é mesmo muito novinho ainda! Quanto tempo ele tem? Voltei a responder de cor. Nesta altura os espantos já deixaram há muito de ter originalidades ou discrepâncias.

Podes vir a qualquer hora
Cá estarei para te ouvir
O que tenho para fazer
Posso fazer a seguir

Eu não gosto de hospitais. Nem mesmo deste, onde as enfermeiras nos chamam princesas, falam com doçuras nas vozes e fazem festinhas nos braços. E há janelas grandes, muita luz e o azul do rio lá em baixo. Tenho esbanjado duas manhãs por semana (e às vezes ainda uns princípios de tardes) a caminhar corredores e escadas para me revezar entre as consultas, os cêtêgês, as ecografias, as marcações e as análises, que isto de ser gemelar e de se estar a prolongar encafua-me num estatuto de risco que desconheci nas outras duas. Pelo caminho cruzo-me com a pedopsiquiatria, a espera da oncologia, a morgue. Abro uma estreiteza na porta da urgência obstétrica e mostro ao miúdo crescido o corredor comprido e as muitas portas. Vês, foi aqui que o mano nasceu e é aqui que os manos vão nascer. Mãe, eu queria ver. Não podes, querido, os médicos não deixam. E não ias gostar. À primeira vez nascer parece assustador. Há dores e esforço e sangue. E muitos medos. Só quando lhe ganhamos distância e percebemos a naturalidade da coisa é que perdemos o medo. E penso que, apesar de tudo, é uma sorte estar aqui para princípios e não para fins.

Podes vir quando quiseres
Já fui onde tinha de ir
Resolvi os compromissos
Agora só te quero ouvir

As enfermeiras vão entrando e saindo, trocando as barrigas nos sensores, admirando-se com a sintonia perfeita dos dois corações gémeos, falando do almoço e dos filhos e dos colegas e dos turnos. A Eloísa sem agá vai-se embora com um desconsolado Ainda não é desta..., vem a Helena, muito novinha e tímida. Quantas semanas, princesa? Tem aqui umas contracções grandes, se calhar daqui a bocadinho já tem o seu bebé cá fora. Transformamo-nos nisto, em semanas de gestação e linhas de contracções. Eu sinto umas dores levezinhas e penso Até que enfim., e lembro-me dos três centímetros que a médica me avaliou. Vá lá, digo aos miúdos, hoje é um dia bom para nascer, nove do nove e uma chuva miudinha lá fora, sempre gostei destas capicuas e das chuvas de setembro, que se o ditado é válido para os casamentos também se pode aplicar aos nascimentos. Parto molhado, parto abençoado. Quando eu casei havia sol. E quando os dois miúdos maiores nasceram também. Se calhar está a fazer-nos falta na estória um dia de chuva. É o primeiro filho, Helena?, pergunta a enfermeira. E eu penso se os médicos e os enfermeiros e os auxiliares não sentirão a morte a coabitar com eles aqui dentro destas paredes. Se vêm todas as manhãs para o hospital como quem vai para um escritório ou para uma escola. Porque eu (pres)sinto-a. Nos lenços que tapam as ausências de cabelos nas esperas da oncologia, nas macas que se aceleram para as urgências, na placa que diz morgue numa porta igualzinha às outras todas. Será que a enfermeira que me ajeita o sensor na barriga a gracejar É ela, as meninas começam logo na barriga a fazer-se difíceis., e que diz à colega Vai, vai almoçar para a seguir poder ir eu., também sente este frio à espreita ou já se habituou e a morte rotinou-se tanto como uma análise e um teste à urina?

Houve um tempo em que julguei
Que o valor do que fazia
Era tal que se eu parasse
O mundo à volta ruía

A ecografia mostrou-os grandes, tão grandes para gémeos. Ele com dois quilos e oitocentas e mais umas graminhas, ela só com menos cem. Empuzzlados um no outro, arrumadinhos a rentabilizar os espacinhos todos. A médica a ver-se aflita para os destrinçar um do outro Mas onde é que estão as pernas desta rapariga? E onde é que ele enfiou a outra perna? Suspiro todos os dias pelo fim da barriga, que as trinta e sete semanas ultrapassaram em muito o esperado e se os quilos continuam a aumentar-se invalidam-me completamente as já poucas hipóteses de um parto natural. E eu, que consegui fazer nascer dois miúdos maiores que estes a resmungar Não quero oxitocina., Não quero episiotomia., Quero que ele mame já a seguir., Não quero que mo levem., aborreço-me muito com esta cesariana a acenar-me no fim do caminho. Peço-lhes por isso muitas vezes para nascerem. Vá queridos, nasçam, chegou a hora, há tanta gente à vossa espera...

Agora em tudo o que faço
O tempo é tão relativo
Podes vir por um abraço
Podes vir sem ter motivo
Tens em mim o teu espaço

A enfermeira minimiza o som dos corações Isto nem se consegue pensar, parecem uns tambores., e liga um rádio pequenino, um bocadinho roufenho. E de repente começa a música. Que eu já a tinha ouvido por aí, claro, que é muito conhecida. Não o gosto nem desgosto, está naquele campo morno da indiferença. Mas de repente as palavras fazem tanto, tanto sentido. Que os miúdos maiores têm músicas só deles. Não são as músicas de que mais gosto ou as que escolhi para eles. Foram as que se oportunaram na gravidez ou no parto e ficaram as músicas deles. E estranhamente encaixam-se-lhes nos feitios e provavelmente nos destinos. E tenho pensado muitas vezes nestes meses Estes miúdos não têm música nenhuma. À espera que alguma aparecesse. Suspirei de alívio. É esta. É que é mesmo esta. Pronto, agora podem nascer.

Todo o tempo do mundo
para ti tenho todo o tempo do mundo
Todo o tempo do mundo

(Para além das óbvias ausências de tempos corroí-me de indecisões sobre o transcrever ou não para aqui estas palavras que rascunhei na última manhã que gastei no hospital nas esperas da consulta e dos resultados das análises e do cêtêgê. Desagrada-me falcatruar as datas e isto dos blogues é mesmo assim, o que não se regista no momento passa a validade e azeda. Mas depois achei que, ao contrário de muitas outras palavras que têm viajado do caderninho de capa castanha para o caixote do papel, estas eu gostava muito de deixar aqui para os meus filhos mais pequenos. Portanto, cá estão. Desacertadas nas cronologias mas acertadas com os sentimentos.
Os miúdos nasceram no dia a seguir.)

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

errata

As longilíneas das sombras diminuem-lhe a grandeza e a saliência, que parece apenas um normal fim de tempo quase a transformar-se em pessoa. Ao vivo, sem o favorecimento da esguiez, é assustadoramente enorme. Eu própria, habituada a espelhá-la enquanto me visto, horrorizei-me há dias quando me desreconheci nos pixéis da máquina conjugal. De repente, sem darmos por isso, ascendeu a protagonista de um espectáculo em que não nos imaginávamos a participar. Na rua eu fui exonerada de pessoa e nós todos demitidos de família de dois adultos com duas crianças. Sózinha ou em conjunto, resumimo-nos à barriga. Desconhecidos olham, apontam, voltam a olhar, cotovelam, sussurram audivelmente Olha aquela grávida!, Que grande barriga!, voltam a olhar, sorriem, espantam-se, horrorizam-se, comentam. Na praia, com o biquíni e a ausência de vestido a desnudarem a verdadeira amplitude da protuberância, é onde as reacções mais se hiperbolizam. Alguns chegam a afoitar-se em questionários Isso deve estar mesmo quase, não?, Isso era para ontem?, São dois ou três que tem aí dentro?. Eu bem faço por insignificantar-me, mas não serve de nada. Lá vamos esclarecendo que Sim, são dois e estão crescidos e com mais semanas do que o esperado, um bocado enfastiados de tanto avultamento enquanto o miúdo grande, que antes era o primeiro a esclarecer quantidades e sexos e nomes, resmunga Bolas, quando é que eles nascem para isto acabar? É só a barriga, a barriga, a barriga, já ninguém repara em mim nem no Joaquim... Vou-o sossegando com uns Está mesmo quase, filho, tens que ter só mais um bocadinho de paciência., e ocultando o pressentimento de que isto é só a apresentação de um filme que prevejo abundante e maçador. Está quase, filho, que eu também já estou farta...

terça-feira, 31 de agosto de 2010

summertime 15

À sombra.

summertime 14

À tarde espraia bichos campestres perto das ondas.

summertime 13

De manhã lapisa bichos marinhos nos versos das A4s já desprestimosas.

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

esperas

A mesma médica que há dezoito ou dezanove meses me prescrevia caminhadas para convencer a descer um bebé que insistia em alojar-se-me encostadinho ao coração desta vez recomendou-me descansos Porque os gémeos nascem quase sempre antes e o mais certo é nem chegarem a setembro. Isto acrescentado às muitas mães que afirmam não ter conseguido evitar o primeiro dia nas trinta e duas ou trinta e três ou trinta e quatro semanas, a uma barriga pouco crescida em quilos mas muito aumentada em centímetros e a uma ecografia que os mostrou com os mesmos pesos e comprimentos de um bebé que se encasulasse sózinho fez-me afirmar aos amigos Isto de certeza que não passa do meio de agosto. O que até me desconsolou um bocadinho, que os calores, luzes e energias do oito tornam-no o que mais desgosto dos doze e não sei se o fogo dos leões se me encaixava bem nas águas dos peixes. Por isso agora vou respondendo uns Não, ainda nada., espantados aos crescentes mails e telefonemas e mensagens, admirada com a ausência de contracções e de vontades de quererem nascer. Ontem entrei nas trinta e seis semanas e depois de passar tantos meses inquietada com prematuridades e incubadoras sinto-me cansada dos já quatro quilos e tal de gente, dos pés inchados, dos formigueiros nas mãos ao acordar, das dificuldades nas locomoções e nos pegares ao colo no meu (por enquanto único) bebé e acho que estes miúdos cá de dentro já podiam ir dando sinais de querer vir cá para fora...

domingo, 29 de agosto de 2010

família numerosa

O pai diz que se isto de ter que chamar quatro nomes se balburdiar desmedidamente numeramos os miúdos em crescente do maior para o menor: o um, o dois, o três e a quatro. Eu, que já desnomeio muitas vezes só este par, não me importo nada de ter filhalgarismos desde que isso me poupe tempos e confusões.

summertime 12

O pequeno conquista desvergonhadamente as construções deixadas por outros para os jantares das marés.

sábado, 28 de agosto de 2010

summertime 11

Uns dias depois de desencobrir que estava grávida do pequeno Joaquim o meu filho que na altura era único desencovou das areias das férias um coração que ainda guardo junto com os dois riscos cor-de-rosa da confirmação. Agora que estou quase a conhecer estes dois miúdos o meu filho que diz que já não se lembra de como era ser único esbarrou nas mesmas areias com mais um coração. Só pode ser um bom sinal.

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

silent land

E depois, alinhavadas aos sonhos, chegaram-me as memórias dos silêncios da minha casa de menina. Que estava sempre limpa, arrumada, estática, vazia, silenciosa. Tão silenciosa. Não havia músicas nem cantos nem diálogos nem barulhos nem campainhas a anunciar visitas nem telefonemas com vozes de amigos nem alegrias. Acho que nem havia os irritantes zzzzzzs das moscas, que nem as moscas gostavam de voar numa morada tão triste e monótona. E lembrei-me que pensava Eu gostava era de ter muitos irmãos, Eu gostava era de ter uma família grande, Eu gostava era de ter a casa cheia de risos e barulhos e confusões e desarrumações. Parece que afinal o desejo já existia. Eu é que me tinha esquecido dele...

dreamland

As tranquilidades e os contentamentos demoraram a domiciliar-se. Depois da descoberta ainda levei umas (acho que muitas) semanas encalhada nas previsões das dificuldades e dos cansaços. Nesses primórdios, paralelos às desconsiderações e aos espantos, indignavam-me sobretudo os Ah, isso era mesmo o meu sonho, eu queria tanto ter gémeos! E assim um casalinho, que é tão bonito, para ficar logo despachada!, que só não me arregalavam quando se vozeavam da falta de vivência das ainda não mães.

Mas depois começou a acontecer-me esta coisa singular. Enquanto eu soçobrava em queixas e desânimos, ele e ela começaram a alojar-se-me nos sonhos. Eu, desacostumada de sonhar com os outros dois miúdos enquanto moravam na barriga, que pelo menos ao acordar nunca me lembrava de os sonhar, comecei a sonhar com estes. Muitas, muitas vezes. Tranquilos e contentes, sempre. Umas vezes menorzinhos, acabadinhos de nascer, ainda na sala de partos e já a sorrir, e as parteiras encantadas Eu nunca vi uma criança a sorrir assim que nasce, vão ser uns bebés muito felizes. Outras vezes maiorzinhos, a gatinhar, no carrinho, sentados à mesa a comer, a brincar no chão com os irmãos. E, ao acordar, depois de os ver, sinto-me sempre estranhamente acalmada. Sem receios. Satisfeita. Por isso, e uma vez que não posso deixar aqui para a posteridade que estes filhos em duplicado vêm preencher um acalento antigo (o que era bom, que eles depois liam isto e ficavam todos contentes, Ainda nós não éramos nada e já a mãe suspirava por nós., que com certeza deve ser óptimo uma pessoa sentir-se desejada ainda antes de existir), posso escrever que agora o que eu quero mesmo fazer, nestes próximos anos, é dar muito colo e mimos e beijinhos. Ver os primeiros passos, ouvir os primeiros balbucios e cheirá-los muitas vezes. Porque, e aqui o lugar-comum é mesmo verdade, eles crescem muito depressa. E depois logo tenho tempo para as outras coisas todas que planeio acontecer. E embora antes não fossem um apetite agora são muito bem-vindos.

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

summertime 10

Sempre que as marés decrescem despendemos muitos passos e minutos a procurar achados.

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

summertime 9

E com este peixe.

summertime 8

Quando os decibéis começam a atingir níveis nocivos ao normal funcionamento dos pensamentos sossego-os aos dois com estas minhocas.

terça-feira, 24 de agosto de 2010

summertime 7

Às vezes já brincam os dois juntos. É pena é que seja sempre por tão pouco tempo e que termine invariavelmente com os gritos e choros de um e os Sai daqui. Oh mãe, ralha lá com ele. do outro.

parecenças

Na frutaria o grande pede Mãe, podes levar melancia? Uma grande, por favor. E melão? E daquelas meloas pequeninas? E pêssegos, vais levar pêssegos, não vais? E ameixas? E bananas da ilha da Sofia, que são tão boas? O pequeno diz Nham, nham, nham, nham. e pede Dá, dá, dá.

diferenças

Na peixaria o grande pergunta Como é que se chama este peixe, mãe? E este? Já viste os dentes deste? Olha, os caranguejos ainda se estão a mexer! Olha a boca do polvo mesmo ali no meio dos tentáculos. Posso mexer? O pequeno diz Nham, nham, nham, nham. e pede Dá, dá, dá.

No talho o grande pergunta Isto são coelhos? E onde é que está o rabinho? Aquilo ali são patas de galinha? E onde é que estão as penas delas? E aquelas galinhas tão pequeninas, são o quê? Como é que os senhores tiram a pele dos porcos e das vacas? Ah, aquilo é uma orelha de porco! Que gira! O pequeno diz Nham, nham, nham, nham. e pede Dá, dá, dá.

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

summertime 6


Vendo bem as coisas eu devia era ter ficado sossegada que os receios do miúdo até me facilitavam a vida. Não saía da toalha. Os baldes, pás, moinhos, forminhas e peneiras voltavam imaculados. Ele não transportava nem um grãozinho de areia para casa. Mas não. Andámos, o miúdo crescido e eu, em tentativas e insistências. Olha a areia, tão gira. Anda, anda fazer um buraco com a pá. Olha a areia a passar pela peneira. Vá, faz tu. Não, não chora, não faz mal nenhum, é só areia. Muito bem, o Joaquim já consegue fazer um buraco! Viva! Palminhas! Agora... agora acabaram-se-me os sossegos. O miúdo corre pelo areal. O miúdo recolhe lixo e paus e pedrinhas e conchinhas que tenta comer. O miúdo enterra os brinquedos que só não ficam perdidos graças à vigilância feroz do irmão. O miúdo destrói castelos, montes, estradas e buracos. O miúdo come quilos de areia que lhe granulam os cocós do dia seguinte. E volta para casa com o cabelo e a cara e as dobrinhas tão croquetados que nem esponjados vigorosamente se desencardem. Pela minha parte aprendi a lição. Agora não me vou pôr com Olha a água tão linda, não chora, não faz mal nenhum, anda só mais um bocadinho, vamos ter com o mano ali mais dentro, tão bom. Não, não. Vou ficar muito caladinha, que as areias já me dão trabalhos que cheguem, e esperar que o miúdo resolva os medos dele sózinho.

summertime 5

Quando passamos da praia a caminho do parque de estacionamento o miúdo crescido obriga-nos sempre a parar para ver as osgas nos candeeiros já acesos a tentar jantar mosquitos e outros insectos.