quinta-feira, 21 de fevereiro de 2008

coca-formigas




quarta-feira, 20 de fevereiro de 2008

meia prenda

Com quatro pontos na bochechinha e oito na pata, às sete já tinha os olhos abertos, às oito já comia e às nove já saltava para cima da cadeira. A gatinha mais doce do mundo é também a mais corajosa.

Ganhei metade. A outra só sei se a ganho depois da Luísa biopsar os círculos cor-de-rosa que ficaram a flutuar o formol. Nas meias esperas googlo maldades e encontro isto. Serão tão mágicas como as explicam?

terça-feira, 19 de fevereiro de 2008

trinta e sete

A Luísa marcou para hoje. Hoje às quatro. Perguntou-me o Mário se queria noutro, num neutro. Amanhã, depois de amanhã. Disse-lhe firmemente que não. Não há porque adiar, quanto mais depressa melhor, respondi-lhe. Cheia de medo. Que no meu ainda me faz mais responsável. E mais triste.
E agora estou aqui, deprimida com este céu choroso, com uma fotografia dela à frente e a culpar-me por não estar lá, encostada à porta à espera de a ver abrir os olhos. Sonhará, a minha pequenina, enquanto a Luísa a corta e lhe retira gramas malignas e a cose? Terá medo? E a única prenda de anos que peço é uma gata acordada e curada...

filho d'água


São bons estes dias de chuva, não são mãe?

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2008

mãe d'água

Não sei porque é que não tive umas. Quase todos os miúdos as tinham. Não me lembro das justificações maternas. Lembro-me, isso sim, de invejar os miúdos que navegavam poças emborrachados de vermelho ou de verde enquanto eu as marginava, resguardada de pingos e de alegrias. De lhes invejar os risos, os pés molhados e as liberdades.
Uma vez afundei-me. Às escondidas. Os sapatos azuis escuros com atacadores, as meias de lã cremes, eram quase sempre cremes, os meus pés na água castanha polvilhada de folhas e pauzinhos. Para a frente e para trás, para a frente e para trás, pés-baleias, pés-sereias, pés-caravelas a inventarem ondas num mar manso. Caí, interrompi-lhe depois a algaraviada colérica de amigdalites e febres e constipações. Caí, foi sem querer, menti-lhe. Acho que foi a primeira vez que lhe menti. Devia ter uns sete ou oito anos e percebi que podia mentir-lhe. Esqueci as palmadas mas não esqueci os sapatos-barcos e os pés-peixes. E habituei-me a mentir-lhe.

O meu miúdo voa a pés juntos para todas as poças com que nos cruzamos daqui até à escolinha amarela. Chega lá com salpicos nas calças, na capa azul e até na cara. Vira a sombrinha ao contrário para a encher de gotas-preciosas. Eu desalegro-me com as águas de fevereiro mas silencio as preocupações com as mazelas e alegro-me com os contentamentos dele. Umas botas d'água chegam para o fazer feliz e (espero) para não precisar de me mentir insignificâncias.

the rain in spain stays mainly in the plain

Eu antes até me agradava com a chuva. Com o compasso nos vidros. Com o céu lavado. Com o cheiro dos molhados. Gostava de ficar e também gostava de sair. Agora destempera-me. Custa-me, ainda mais que nas manhãs secas, despreguiçar-me dos sonos. Custa-me despreguiçar o miúdo dos quentes. Custa-me chuveirar-me em uníssono com as gotas de fora. Custa-me preenchê-lo com botas e capa e sombrinha e capuz. Custa-me o cinzento. Custa-me exteriorizar a cadela e trazê-la molhada e precisada de turcos para não me inundar tapetes e caminha e chão. Custa-me passar o dia de lâmpadas acesas. Custa-me irritar-me com nadas. Custa-me afligir-me com constipações e ranhos e tosses. Custa-me sair mas também me custa ficar. Custa-me sentir-me assim descolorida...

sábado, 2 de fevereiro de 2008

gosto de te ver (outra vez), leãozinho

Ainda me pesaram um bocadinho as consciências, vesti-lo da mesma coisa dois carnavais seguidos. Mas todas as aparências que lhe tencionei - médico, bombeiro, mecânico, fantasma, pescador... - foram recusadas. Dragão, eu quero é vestir-me de dragão. Tentei explicar-lhe as dificuldades da escolha, bicho que anda, voa e ainda cospe fogo. Patas, asas, rabo, língua - E bífida, mamã, não te podes esquecer que é bífida! Não o encontrar à venda - e não engraçar com os acetinados brilhantes e fininhos pouco amoldados a bicho tão feroz e a frios de Fevereiro - e falharem-me os tempos, as imaginações e os hábitos para conceber e coser tal criatura. Pronto, então levo o fatinho de leão, que eu gosto muito dele. Só não quero a cara pintada.

Desde ontem de manhã que se passeia enjubado, a arrastar o filhote e a cantar bocadinhos do Caetano. Tem o quarto serpentinado. E fizémos um bolo de chocolate.

Está feliz, parece-me. E eu de consciências leves.

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2008

quinta-feira, 31 de janeiro de 2008

das duas

Entre as vogais audíveis de uma e os abanares de rabo contáveis da outra, contou-me das opiniões da Luísa. Que da grande ou foi magoamento ou qualquer coisa hormonal, deve passar sózinho, o redondo. Que da pequena são quistos, acelerados a mais para o gosto dela. Engole um comprimido branco durante sete dias, se não passar biopsam-se e excluem-se.

Ignorei a última parte. Há palavras amargas que deviam andar sempre longe de quem gostamos. Uma está boa, a outra vai estar. Vai correr tudo bem, repito-nos. Vai correr tudo bem, repito-me. E amanhã de manhã já cá estão.

quarta-feira, 30 de janeiro de 2008

com fome

Já vinha a repará-la desde a subida, que o nem o miúdo perde os hábitos de espreitar nuvens nem eu os de espreitar janelas e varandas. Cabeças no ar, ele a perguntar, eu a esquecer-me de responder. A invejar-lhe os pés descalços ao sol, a palha primaveril na cabeça, o livro no colo, o descanso na varanda. E a descontabilizar anos de preguiçamentos. Aos tempos que não esplanado, que não revisto futilidades, que não me afundo na banheira cheia, que não leio sem sono, que sou interrompida em tudo pelos Mãe! Mamã! Mamã, responde-me! A cobiçar-lhe a folga. Quando de repente ela levantou os olhos do livro e nos encarou. O miúdo embatado aos solavancos na minha mão, a urgência de não chegar depois das nove, a cantoria O coelho Alberto disse ao neto que é perigoso andar a passear com a mão livre a dentar feita crocodilo. E era capaz de jurar que a percebi a descontabilizar passados e a invejar-nos. Pode ter sido só impressão minha. Mas era capaz de jurar. Sorrimo-nos. Ela voltou ao livro, eu apressei-me, ele continuou Passo a passo o crocodilo avança, abre a boca...

Tonta. Queixo-me de barriga cheia.

terça-feira, 29 de janeiro de 2008

mesa para dois

Domingo ao fim da tarde. Eu rolo a massa para a tarte de frango, ele pinta a galinha meg. Coexistimos sempre na cozinha na hora dos preparos.

segunda-feira, 28 de janeiro de 2008

respostas gasosas

Voltámos para casa a partilhar desilusões. Ele, especialmente, arrastou indignações pela relva. Mas não puseram nenhuma nave espacial nem nenhum foguetão. E não mostraram os planetas! E assim não sei nada sobre o sol e a lua e as galáxias... É que as expectativas já cresciam de há umas semanas para cá. Um destes domingos de manhã vamos ao planetário ver a sessão para meninos, fui-lhe prometendo. Os porquês recentes propiciaram a ocasião. Prometi-lhe um céu estrelado, planetas e constelações e esperava, claro, ensinamentos a fingirem-se brincadeiras, a melhor maneira de explicar a entreter meninos menorzinhos e maiorzinhos. Em vez disso ganhámos monotonias. Cinquenta minutos com estrelas paradas lá em cima, uma voz a aular como identificar a estrela polar e a constelação da ursa maior, uma música psicadélica e uma trovoada final assustadora. Uma sala cheia que nos inícios teve Ahs! maravilhados e silêncios recebeu logo a seguir remeximentos, levantares, tentativas de brincadeiras e desatenções.
Desaconselho. Acho que até para os crescidos...

domingo, 27 de janeiro de 2008

respostas sólidas

A seguir ao Júpiter vem o...
Saturno. É o que tem anéis.
Pois é, muito bem! Depois vem o Urano, a seguir o...
Neptuno?
Sim, e no fim de todos vem o...
Anão! O planeta anão!

Intuitivo, o puto é intuitivo.

perguntas líquidas

Primeiro pedi-lhe com jeitinho. Depois pedi-lhe sem jeitinho. Depois expliquei-lhe como me sabe bem alongar-me ali, sózinha e sossegada e calada, com os calores da água a despreguiçarem-me frios e sonos. Depois implorei. Depois prescrevi um Vai ver desenhos ou vai brincar para o teu quarto! tão ralhado que ecoou mais castigo que sugestão. Depois desisti. Fica-se sempre por ali, a fazer voar aviões ou a fazer rodar carrinhos e a falar, enquanto eu me vou esquentando e surdando porquês e comos e replicando huns e sins ao calhas. Ontem, depois de se ter repetido várias vezes em palavras que o champô a descair pelos ouvidos me ajudou a desconhecer, afastou a cortina em exigências zangadas Oh mãe, já te disse umas seis vezes! Tu tens que me explicar o sistema solar!

Acho que vou começar a fechar a porta à chave.

sábado, 26 de janeiro de 2008

arroxeadas

Gosto de papoilas e de margaridas e de malmequeres e de girassóis e de gerberas e de violetas e de tulipas e de narcisos. Forço-me a gostar de rosas por causa do Principezinho.
Não gosto de estrelícias nem de orquídeas nem de gladíolos nem de lírios nem de açucenas nem de begónias nem de peónias. Não gosto de flores aprimoradas, requintadas, confusas. Não gosto de não-flores.

Mas todos os dias sorrio feliz quando descubro mais uma arroxeada a despentear-se-me na janela. Flores-de-filho, gosto muito de flores-de-filho.

sexta-feira, 25 de janeiro de 2008

já-roxas

Olha mamã, eu fiz um abracadabra e agora são já-flores!

quinta-feira, 24 de janeiro de 2008

sem uma e sem a outra

É que nem a ausência dos incómodos me aligeira as saudades. Prossigo tarefando os costumes de todos os dias deslembrada dos arredamentos. Aspiro um chão invulgarmente despovoado de pêlos. Antecipo-me aos ruídos desagradáveis do despertador inquietada com os tempos para a levar à rua. Esbanjo água na tijela azul. Esvazio o prato da última batata na tijela amarela. Origamo o saquinho das maçãs e o saquinho das cenouras e o saquinho das quatro bolinhas na bolsa verde velcrada à trela. Desassossego-me com a carência de cocós nas pedras. Carrego-me com seis quilos de ração e com cinco quilos de absorvente no meio de cereais, guardanapos e esparguete. Estranho-me a meio da noite quando não forço um peso ao esquerdar as pernas. Esqueço-me que não estão.

Eu ainda perguntei talvez a uma meia dúzia de acompanhantes de cães por veterinários aqui na cidade grande mas os euros e sobretudo os desinteresses e descuidos das respostas fizeram-me preferir as de sempre, a trezentos e muitos quilómetros e numa língua diferente, mas que as conhecem melhor por dentro do que eu. E que lhes lembram os nomes. E que lhes chamam bonita. Bonita, ciciava-lhe a Luísa enquanto lhe tentava esgotar podridões na barriga infectada. Nunca mais me esqueci, do doce na voz dela. Nem da barriga.

Justifiquei-lhe as descomparências. Expliquei-lhe operações passadas e caroços presentes. Este primeiro da cadela, sustado uma tarde destas ao escová-la nas relvas. E os muitos da gata, os da barriga repetentes, os pequenos e velozes do resto do corpo caloiros. Distraíu-se das tristezas com o ir levá-las ao carro a desoras e já empijamado mas quando abrimos a porta para uma casa vazia, desabitada, inóspita chorou-as aflito. Mas porquê? Eu gosto tanto delas. Eu não quero que elas estejam doentes. Eu não quero que elas morram. É melhor tu dares-me um colo... Calei-lhe as lágimas gordas com promessas de saúde e vida longa, zangada com o descontrolar os tempos de vida de quem amo. Vai correr tudo bem, repeti-lhe muitas vezes. A sossegá-lo. A sossegar-me.

Lavo-lhes e arejo-lhes as camas. Vazo pedras novas no tabuleiro. Compro as latinhas preferidas. Arrumo o osso, a corda, a lã cor-de-rosa, a bolinha no cesto dos brinquedos. Espero-as. Na esperança de prosseguir tarefando os costumes de todos os dias durante muitos anos.

Vai correr tudo bem.

quarta-feira, 23 de janeiro de 2008

a outra

Sobre a outra, mais reduzida em dimensões mas mais aumentada em anos, é que reparo que quase nada me alongo por aqui. Penso, muitas vezes, que tenho que a escrever, e fico estranhamente despalavrada. Sobram-me muitas imagens, que a pequena é fotogénica, mas escasseiam-me os discursos.

E no entanto há tantas miudezas de todos os dias que me apetece frasear. Como se tem indo extraviando o Tai, nome primeiro, e como tem ganho uma série deles com o andar dos tempos e das intimidades. Maria Gata. Menina Gatinha. Gata Suricata (por os semelhar no ficar de pé para acolher festinhas). Gata. É, muitas vezes, a Gata. Viste a Gata? Já deste comida à Gata? Gata Gatota, Gatotinha, Gatoca, Gatoquinha, lengalenga ele para ela. Como é faladora. Fala tanto, desde gatinha, que toda a gente que vem cá a casa se desprevine com as vogais certinhas nas palavras. Ião para Simão, ãos zangados para as escovadelas desembaraçantes de nós nos pêlos, éo para quero comida. Adoptámos-lhe alguns discursos. Sou eu, sou eu a dar-lhe o éo, grita-me o miúdo zangado quando o despromovo do encargo a seguir ao jantar. Intuitiva, orienta a cabeça para o telefone uns segundos antes do som, bate-me com a almofadinha na cara mesmo antes do despertador me estorvar os sonhos. Salta-me para o colo assim que me sento. Sopesa-se-me nas pernas a maior parte das vezes que aqui escrevo.Dorme comigo. Eu, que em miúda pensava que desengraçava com gatos, tenho uma sempre a aquecer-me as noites. No verão fora, no inverno dentro. Quando o miúdo cá morava e crescia ela ronronava para as agitações da barriga. E nunca produziu ciúmes pelos que foram chegando, nem quando ele, bebé, ocupava todos os tempos, todos os colos e todos os silêncios.

Há gestos que se rotinam há quase doze anos e que continuam a pôr-me em sorrisos. O esquecer-se da língua de fora quando suspende as lambidelas. O corpo imóvel com as orelhas a cataventarem a imensidão de minúsculos ruídos da casa e da rua. Os olhos redondos de susto. As posições contorcionadas para se aproximar de pêlos fora de língua. O morder e agarrar a lã cor-de-rosa com que o miúdo lhe atrapalha os sonos na janela. O correr atrás e futebolar a bolinha branca que nos pingue-pongueia ligeira e sonoramente a casa toda. O saltar para a cama dele na hora das estórias da noite. Os ronronares. Os ronronares tão perseverantes.

Não me imagino sem ela. Não nos imagino sem ela.

terça-feira, 22 de janeiro de 2008

Os melhores amigos.
Antes do oito e do desengessamento.

segunda-feira, 21 de janeiro de 2008

uma

Apercebo-me que tenho poupado nas palavras e nas imagens delas aqui pela caixa. Um despropósito, ralho-me, este desintencional preterir para secundário quem tanto divide connosco casa e dias. Corrijo-me a partir daqui e prometo-me exibi-las cá dentro nos mesmos papéis principais que ocupam na nossa história cá de fora.

Se calhar, mesmo assim, a grande é capaz de se achar mais vezes nas narrativas que a pequena, não por desmerecimento da segunda mas por não gostar de se exteriorizar. A cadela quase todas as manhãs se encaminha connosco para a escolinha amarela e quase todas as tardes se velocida pelas relvas com ele nos retornos a casa. Perguntam certas mães se a escola agora tem um cão quando a presenciam em pacientes atrelamentos ao corrimão da entrada enquanto abotoo a bata e confirmo sopa, segundo prato e fruta. E depois há os parques e os passeios e os jardins e a beira-rio em que ela involuntariamente se protagoniza. Oh mãe, olha o cão daquele menino! Posso fazer uma festinha? De que raça é? Que lindo! Morde? Eu também tenho um cão desses. Cão, chamam-lhe sempre cão. Enfado-me, enfadamo-nos, às vezes, com tanta paragem para diálogos, e apetece-me azedar as respostas com as desimportâncias da raça e das bonitezas a quem me expõe vontades de filhotes pedigrados e elevar os interiores Ela é muito, muito, muito boazinha, e isso é o melhor num cão, sobretudo com miúdos pequenos em casa. Mas já contabilizo pelo menos duas amigas a crescerem (tempo, a amizade precisa quase sempre de tempo...) às contas de palavreamentos sobre cios e trelas e veterinários e rações. E o miúdo tem-se adoçado mais, com ela, e tem-se separado de puxões de rabo e de orelhas, dedos nos olhos e arrancares de pêlos. Escova-a, farta-lhe as tijelas de água e comida, resta-lhe os últimos bocadinhos de arroz e de carne, atira-lhe a bola, encontra-lhe troncos e pinhas, faz-lhe festas, dá-lhe beijinhos e chama-lhe minha querida. Minha querida. É tão bonito, quando lhe diz minha querida.

Avança sem irmãos (ainda, falhou-me ali o ainda antes do sem) mas com cadela. Cadela-amiga. Cadela-quase irmã. Não o imagino a crescer sem ela. Não nos imagino sem ela.