segunda-feira, 12 de julho de 2010

famílias






Todas tão (des)iguais.

sexta-feira, 9 de julho de 2010

menino + menina

terça-feira, 6 de julho de 2010

muitas lá de fora

Eu ia escrever Um masculino e uma feminina decidem acasalar os dias e as tralhas mas de repente pensei que agora, felizmente, também posso escrever um masculino e um masculino ou uma feminina e uma feminina por isso vou recomeçar e reformular os géneros. Duas pessoas decidem acasalar (ou amigar, como dizia a minha avó Rita, Fulana vive amigada com Sicrano, a reprovar a falta de igreja e aliança, e eu achava tão bonito, Apaixonados e amigos, há lá coisa melhor, avó?) os dias e as tralhas e famílias, amigos, vizinhos, conhecidos e desconhecidos começam logo a ladainhar os Então, quando é que encomendam um bebé?, os Então, e o bebé? e os Então, quando é que mandam vir um bebé?, tudo acompanhado de várias jocosidades sobre treinos e aulas práticas e como fazeres. Mais ano, menos ano as pessoas lá se decidem a triplicar-se. E ainda mal desforrados do parto e estonteados com cocós líquidos, mamadas, noites sem dormir e capacidades vocais inesperadas em menos de quatro quilos de gente, recomeçam a ouvir famílias, amigos, vizinhos, conhecidos e desconhecidos nos Então, agora têm que mandar vir mais um para brincar com este., e nos Então, agora tem que vir a menina., no caso de terem um masculino ou nos Então, e o menino?, no caso de terem uma feminina. Algumas pessoas decidem-se pela unicidade e acredito que este palavreado se vá continuando até as rugas e os cabelos brancos o ridicularizarem. Outros, já mais aquietados com os nãos, as birras e os chichis nos tapetes, lá se resolvem a desdobrar a prole. Quando o nascituro é do sexo oposto ao primogénito, famílias, amigos, vizinhos, conhecidos e desconhecidos emudecem com um aliviado Pronto, já têm o casalinho, agora já estão despachados. Quando repetem o género, alguns - só alguns, poucochinhos, que a maioria afirma segura que a vida não está para ter muitos filhos - ainda vacilam uns desconvictos Então, ainda vão à procura da menina? ou À terceira é que é o rapaz!. Agora ter quatro... ah, ter quatro não tem justificações nem incentivos nem desculpas. Ter quatro está errado.

Tenho coleccionado, proporcionalmente ao aumento do diâmetro da barriga, perguntas e imbecilidades. Ao princípio respondia educadamente às perguntas, que eu carrego comigo este mau-hábito de me justificar (Que não, que não foi tratamento. Que sim, que tenho uma prima que teve gémeas, mas mães, avós, bisavós e outra parentela quase desconhecida lá para trás não pariram nem cuidaram em dobro. Que sim, queríamos ter o três, mas quando começámos a dialogar Achas que agora era uma boa altura, com este ainda tão pequenino? já cá estavam semeados estes dois. Que sim, calculo que seja uma trabalheira. Que não, não sei como vou fazer.), e atormentava-me com as imbecilidades. Agora já me consigo rir. Assim, vizinho com os Força! e Coragem! e Vai ser uma festa! e Boa sorte! Não se preocupe, eles dão muito trabalho no princípio mas crescem num instante e depois brincam todos uns com os outros!, queria deixar aqui para a maioridade dos miúdos o top (que não sei se é ten ou se já ultrapassou em muito a dezena) dos desagrados que lhes estão a acolher estas semanas de vida na barriga. Perdi a conta aos recorrentes Coitada!, Coitadinha!, e Que horror! Quatro filhos!. Deixei de elucidar os Mas como é que fez isso? e os Então? Engravida com o ar?. Ignorei os Mas isso já não se usa, ter tantos filhos! Isso era antigamente, as mulheres modernas agora só têm um! e calei as discordâncias com os Mas para quê pôr mais pessoas no mundo se o planeta já está tão cheio e se isto está tudo tão mal?. Habituei-me aos Isso não se pega, pois não? e aos aterrorizados O quê? Ainda há mais um? E mais outro mais crescido? das poucas vezes que não tinha comigo algum ou os dois de cá de fora. Ri-me a sério de uma colega com que não me cruzava desde a barriga do Joaquim e que estranhou Mas então ainda não nasceu?. Acalmei as dúvidas dos Tens a certeza que não tens aí dentro mais nenhum escondido? e ensurdeci aos Mas para que é que queres mais bebés se ainda aí tens um tão pequenino para acabar de criar?. Concordei com os Isto agora anda aí uma onda de gémeos!. E finalmente espantei-me com a cigana do mercado que me pesava dois quilos de cerejas e um de morangos O quê, filha? Vais ter dois? E esse, é menino, não é? E aquele maiorzinho também é rapaz, não é? Coitada, três rapazes! E marido, também tens algum em casa? Coitadinha, ter que aturar quatro homens em casa!

segunda-feira, 5 de julho de 2010

terceiras cá de dentro

Prepara-te Joaquim. Pensas que vais continuar a ser o bebé, toda a gente à tua volta Ai que simpático, Ai que bonito? Não, vais ser o do meio! Os outros é que vão ser os bebés! Ainda por cima dois! Já ninguém te vai ligar nenhuma! Vais ser só o do meio!

segundas cá de dentro

Então... eu... mais o Joaquim... mais esses dois... vamos ser quatro, não é? Quatro. Ena! Lá na escola mais ninguém tem tantos irmãos! Vou ganhar a todos! Vou ser o miúdo que tem mais irmãos! Ainda por cima vou ser o mais velho, assim eu é que vou mandar neles todos! Quatro. Uau!

primeiras cá de dentro

Oh não, oh não, oh não. Ralhei-me logo, que devia ter composto melhor as informações, que já se sabe que a maneira de explicar, com os miúdos, condiciona as reacções. Mas estava ainda tão atrapalhada que assim que os vi no lado de fora da porta, o pequeno a iogurtar o lanche e o grande a investigar os verdes do rebordo do cimento, Já viste esta folha, mãe, tão linda, com manchas brancas... exibi-lhes o rectângulo minúsculo e anunciei sem preliminares São dois, vamos ter gémeos. Oh não, oh não, oh não. Com muitas lágrimas. Retrocedi nos medos, adocei-me, simulei-me sossegada e satisfeita, procurei optimismos, Oh filho, não chores, são dois, não faz mal, é bom, vais ter mais manos... Oh não, oh não, oh não. Tantas lágrimas. Então, filho? É que vão ser iguais e depois eu não os conheço, vou chamar o nome de um ao outro. Oh não... Sorri-me pela primeira vez na tarde e atalhei-lhe os melodramatismos com as falsidades, a duplicação de cordões e placentas e as grandes probabilidades das diferenças. Ah, então vou conseguir conhecê-los, não é? Não me vou enganar nos nomes, não é? Ah, então pronto! Que bom, dois irmãos de uma vez só!

quinta-feira, 1 de julho de 2010

imprevistos

Desperdiço minutos todos os dias a organizar as horas em listas de planos e trabalhos. As tarefas de amanhã, os jantares da semana, as compras do supermercado, onde ir com os miúdos no domingo à tarde, as férias do Verão. Desprezo sempre os inesperados e não lhes guardo espaço nas longas filas de a fazeres. Sabes o que dizem, que a vida é o que acontece quando não fazemos planos, riu-se a Mê quando lhe contei o acontecido no meio do corredor dos frios, salames, afiambrados, mortadelas, paios, salpicões e linguiças à direita, tomates, chuchus, cenouras, batatas doces e pimentos vermelhos à esquerda. A Mê persiste em atravessar-se-me à frente nos corredores do minipreço, eu sempre a equilibrar os dois miúdos (um em pedinchices e ajudas Podemos levar Tulicreme, mãe?, Olha, leva destes queijinhos que o pai gosta muito., Não te esqueças dos guardanapos que já acabaram. , o outro a desdobrar as mãozinhas gordas para tudo o que se lhe avizinha e a tentar morder alhos, limões, massa fusilli e enlatados, que o miúdo não é de esquisitices e eu estou sempre à espera do dia em que os alarmes vão começar a reclamar por causa dos comestíveis que ele esconde no carrinho atrás das costas e que o irmão pesquisa meticulosamente antes da fila das caixas Mãe, ele está a roubar uma cebola!, Mãe, ele leva aqui um iogurte líquido!) com um carrinho atafulhado de massas, arroz, carne, peixe, iogurtes, ovos, verdes e frutas, ela sempre a desequilibrar latas de almôndegas para gato mais ração seca para cão e a responder-me com provérbios e frases ditas por toda a gente. Cá se fazem cá se pagam. A galinha da vizinha é sempre mais gorda do que a minha. O homem sonha. Ah, os imprevistos. Assim, de repente, reduzem os planos todos a nadas e obrigam-me a contorcionar adaptações a uma vida com que eu nunca imaginava cruzar-me pelo caminho.

É uma cena quase comum, em filmes e livros, e uma amiga que antes era e agora já não é, e que um dia colidiu um carro com uma árvore solitária no meio das planícies alentejanas também me confirmou que sim, que viu a vida a correr-lhe à frente do calculado fim. Eu cá não sei se será assim. Mas, no caso de antes de morrer os percursos desta biografia se me retrospectivarem em jeito de ecrã de cinema, tenho a certeza que esta há-de aparecer na amálgama das importantes. Agora, muitas semanas, centímetros, quilos e calmas depois, tenho pena do relato só incluir pânicos e medos. Eu gostava de chegar aqui e despejar caracteres de alegria, de satisfação e de felicidade instantânea. Mas não. Houve apenas susto. E muitos Eu não consigo, Eu não sou capaz, Eu não sei como é que isto vai ser, Mas porquê eu?

Despi-me e deitei-me sem os pudores de há uns anos atrás, quando as marquesas com os ganchos para empoleirar as pernas me pareciam torturas medievas e quando ainda não me achava capaz de empurrar para o mundo duas crianças de parto normal sem epidural. Expliquei sumariamente os dois riscos no teste, os já trinta e nove anos, a gravidez recente, um bebé de onze meses ainda a mamar e o muito sangue quase dia-sim-dia-sim. E depois esperei enquanto a médica me reduzia a ficheiro de computador o nome, a idade e as queixas, mãos apertadas e olhos muito abertos, truque aprendido há tantos anos com a Mariana da Alice e que continua a ajudar-me a enxotar estas lágrimas fáceis que insistem em escorrer nas maiores inoportunidades. Não vou chorar, não vou chorar, não vou chorar aqui em frente a uma médica desconhecida das urgências. E preparei-me para não ouvir o coração e não ver mãos e pés a mexerem, Não faz mal, já tenho dois, vendo bem as coisas não preciso de um terceiro para nada... Não, não estou a ver nada... parece-me tudo bem... o saco está intacto... olhe, até se está a mexer... talvez a placenta esteja um bocadinho baixa... vou ver melhor... E foi ali. A imagem que não vou esquecer. Eu a olhar para os dedinhos e perninhas e cabeça, que à terceira as manchas estranhas da primeira já têm todas nome sem precisar de perguntar E isto o que é? e de repente o um desdobrou-se em dois, um instantinho só, e depois unificou-se outra vez. Oh! São dois, não são? São dois! Eu vi dois! A médica calada, o sensor na minha barriga a retroceder à procura do dobro, o espelho a aparecer outra vez no monitor. Sim, parece que são dois. Parabéns, vai ter gémeos! Que giro, gémeos! Parabéns? Giro? Não, não, não, isso não é meu. Isso deve estar avariado. Não podem ser dois. Não tenho lugares no carro amarelo nem roupa que chegue, nem carrinho duplo, nem espaço em casa, nem alcofas e camas, nem dinheiro, nem planos, nem vontades, nunca pensei ter quatro filhos... Quatro? Quatro é uma multidão, eu só quero três, que três já são imensos... E o meu marido e os miúdos lá fora à espera que eu saia e diga Perdi-o, afinal já não vamos ter mais nenhum bebé e agora como é, chego lá e digo Olha são dois! Não, não podem ser dois, um chega perfeitamente., e a médica e a enfermeira a sorrirem da minha abundância de palavras e dos meus pânicos, os miúdos a mexerem-se no monitor, eu a fazer contas a colos e braços e mimos e dinheiros, Mas estão aqui, vê? São seus. E são mesmo dois. Que sorte, vai ter gémeos.

Não vale a pena. Fazer contas e listas e tarefas, planear, organizar, decidir, controlar, percursar. Há os imprevistos. E se calhar a Mê é que tem razão...

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

15:40 - A Cláudia e a Carolina são namoradas, dão beijos na boca no recreio e quando forem crescidas vão casar uma com a outra. Porque é assim, não é, mãe? Os meninos também podem casar com meninos e as meninas também podem casar com meninas, verdade?
15:45 - E hoje o Gabriel trouxe uma blusa cor-de-rosa e a Cláudia chamou-lhe maricas e disse que o cor-de-rosa é só para meninas. O que é maricas, mãe?

Isto dos preconceitos tem mais que se lhe diga.

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

39

"Tenho neste momento tantos pensamentos fundamentais,
tantas coisas verdadeiramente metafísicas para dizer,
que me canso de repente e decido não escrever mais,
não pensar mais, mas deixar que a febre de dizer me dê sono,
e eu faça festas, como a um gato,a tudo quanto poderia ter dito."

Fernando Pessoa

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

bué de bués

O miúdo grande, junto com as letras quase todas do abecedário, os conjuntos, o menor e o maior, as contas de somar e subtrair, as palavras feias e o dedo da asneira, importou da escola os bués. Bué da grande, bué da fixe, bué da longe, bué da forte, bué da giro. Eu, que nunca dialoguei com muitos calões, acho piada aos bués no miúdo de seis anos que às vezes ainda diz sotografia e trambolim. Por isso sintonizo-me com ele Anda que já é bué da tarde., Lava as mãos que estão bué da sujas., Despacha-te que estás bué atrasado. Oh mãe, as mães não dizem bué! Só os meninos!

As crianças são muito ingénuas.

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

o mais

Os filhos dos outros são sempre os mais. Os mais lindos, os mais altos, os mais espertos, os mais traquinas, os mais teimosos, os mais bem-comportados, os primeiros a falar e a andar, os melhores alunos, os melhores na ginástica e na natação e no ballet. Mas o meu bebé é o mais simpático. Verdade. Nos sorrisos e nos braços estendidos para toda a gente ninguém lhe ganha.

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

apalhaçado


segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

ao acaso

Ontem à noite enfriorei-me debaixo de dois edredões mais uma manta e, mesmo assim, os calores não se acercaram. Ainda me levantei para me barricar com mais umas meias e uma camisola mas nem assim consegui aquecer. Encolhi-me muito, os joelhos fetais quase a tremerem no queixo, a fugir dos muitos centímetros frios dos lençóis, mas os sonos demoraram-se, assustados com a chuva e o vento lá de fora. Não fossem as preguiças e os desconfortos de me destapar e tinha ido escaldar-me para debaixo do chuveiro. Adormeci tarde, muito tarde, os pés ainda tiritantes, e sonhei que andava a revestir os tectos do sotão de plásticos e fita-cola para a água e o vento não me diluviarem livros, discos e fotografias.

Tenho andado, aliás, com muitos frios também nos dias. Tremo, entricheiro-me com mais camisolas, não cabido o casaco com que chego da rua, atrapalho-me de luvas e gorros e cachecóis, chateio os miúdos com mais um casaco e muita vitamina C.

O carnaval do crescido resumiu-se aos cabelos às cores e ao nariz que na sexta levou para a escola, feliz na condição de palhaço contente. É um doce, o meu filho mais velho. Mas um doce mesmo doce, daqueles que apetece pôr na boca e deixar a derreter devagarinho, sem mastigar, para não acabar tão depressa. Vai mirabolando máscaras irrealizáveis nos dias anteriores Eu gostava mesmo era de crocodilo., E albatroz? Assim com umas asas enormes que abrissem quando eu abrisse os braços?, Já sei! De peixe porco-espinho, com um balão gigante cá dentro para inchar quando me atacassem!, e depois eu chego com o que mais se me encaixou na carteira e nas pressas e o miúdo bate palmas de felicidade Uau! Era mesmo, mesmo, mesmo isto que eu queria! O fato há-de ficar ali no baú dos disfarces, junto com bigodes, coroas, óculos, chapéus e o leão que quando encaixar nos tamanhos do irmão há-de ter que levar uns coloridos nos pêlos coçados dos joelhos e cotovelos e ainda há-de render muitos divertimentos cá por casa, que faltam-me os ânimos para nos impermeabilizar aos três com galochas, capas e chapéus-de-chuva só para o miúdo ter os três dias de folia do ditado.

Eu até tinha listado saídas e entreténs para estes tempos em casa. Ir à Ilustrarte. Uma tarde inteira de baloiços e escorregas na Serafina ou no Alvito. Apanhar o quinze até à Baixa. Gosto tanto de ir à Baixa. Parar numa daquelas retrosarias da Rua da Conceição e comprar entretela para lhe joelhar os rasgões das calças e lãs para fazer gorros. Apetece-me tanto tricotar, nestas noites frias, gorros e cachecóis, agulhas circulares, chá de maçã e canela e uma manta nos joelhos. Se calhar mando é um mail à Ana, que tem lãs tão lindas e com nomes tão poéticos. Labareda. Violetas. Mar. Hortênsias. Ir à Quinta Pedagógica dos Olivais. Que o miúdo já lá esteve umas duas ou três vezes mas diz que não se lembra. E isto é mesmo assim com os miúdos, têm que se ir repetindo os percursos, que as memórias nestas idades ainda são curtas. Mas os dias chovem, mal-dispostos e escuros, e falham-me as coragens e as vontades para tudo. Até mesmo para (finalmente) organizar o quarto que ainda é só de um mas está mesmo a tornar-se dos dois, agora que o pequeno já não grita desesperos para mamar a meio da noite. Limito-me a inventar bulícios para lhes esgotar as muitas energias e tento assegurar o equilíbrio dos horários para o pequeno não me boicotar as sestas e as noites. E tenho frio. Muito frio.

E hoje e amanhã e depois estou sózinha com os miúdos. Que se calhar quando eles crescerem mais já não digo o sózinha, mas por enquanto é assim, as crianças desacompanham os adultos. A maternidade é muito solitária. Hoje à noite, depois de os deitar, levo eu a cadela à rua, fecho as portadas do pátio, desligo o gás, dou as quatro voltas à chave na fechadura. E depois hei-de ter frio, encolhida e sózinha na cama demasiado grande até para dois lá de cima, por mais mantas e camisolas e meias que me abriguem e tentem confortar.

Apetecia-me uma meia de leite quentinha. Uma meia de leite a sério, de café, e não o deslavado descafeinado com leite que todas as manhãs me ajuda a começar o dia. E ir ver a Precious. À sessão da meia-noite, depois de deitar os miúdos. E um saco térmico de trigo e alfazema da Cristina.

Esta sexta somo mais um ano. Trinta e nove. Apercebo-me que é a última unidade desta dezena e a seguir inicio-me nos enta. Quarenta, cinquenta, sessenta, setenta, oitenta, noventa... Há tão pouca gente a sair deles e a passar a meta (será uma meta?) dos cem. Nunca me ralou muito, a idade, passei a infância e adolescência a querer crescer depressa, estranhava os lamentos dos outros, consolava-os com uns práticos Então, isso é igual, ter trinta e oito ou trinta e nove ou quarenta, mais um ou menos um vai tudo dar ao mesmo. Mas se calhar o que dizem da crise dos quarenta é mesmo verdade, a tal que faz os casais dividirem-se, os homens acompanharem-se de namoradas miúdas, as mulheres metamorfosearem a cor do cabelo e o peso na balança, as viragens nos empregos. Parece que aos trinta quase toda a gente acha que a liberdade da solidão não tem assim tanto valor, acho que aos quarenta começa a olhar-se para trás e questionam-se as viragens nos cruzamentos e nas bifurcações. O caminho que se queria fazer, o caminho que se fez, o caminho que se vai fazer a partir daqui. E agora, para onde se vira? Esquerda, direita ou o mesmo morno do meio? E depois ainda há a morte. Com vinte e trinta acha-se que se tem muito tempo. Eu até acho que com vinte ainda acreditamos que não vamos morrer, tal como com dez não acreditamos que um dia vamos ser crescidos. Com quarenta já temos a certeza que vamos morrer. E sabemos que até pode não tardar outros quarenta...

Esta sexta faço trinta e nove anos. Daqui por um ano faço quarenta. Lá fora chove. Tenho frio e hoje não me apetecem analepses. Vou vestir mais uma camisola e rastejar com os miúdos no chão da sala.

domingo, 14 de fevereiro de 2010

mais barriga que conversa

Nanana (banana), agu (iogurte), baba (bolacha) e mama (mamar). Quais mamã, papá, mano, Simão, cão, bebé, olá, adeus. As primeiras palavras só podiam ser de comer.

mais barriga que olhos

Entre um cesto atestado de brinquedos e outro colorido de frutas, sem vacilações, o miúdo pequeno escolhe o segundo.

dentes de rato

Assim que o libertamos no chão o miúdo pequeno gatinha velozmente até à cozinha, estica-se até conseguir entornar o cesto da fruta, instala-se confortavelmente nos quadrados azuis e brancos e fica, calado e sossegado, a roer pêras, maçãs, mangas, bananas, laranjas e limões.

sábado, 13 de fevereiro de 2010

francisco simões


Só as conhecia das capas dos amores felizes (lá no fim, que depois de muito googlar só consegui encontrar estas) e do metro do campo pequeno. Hoje, mesmo no último dia, confirmei que as meninas-mulheres do Francisco Simões são lindas. Ficam-me só as penas de não as poder festejar, que partilho com os meus miúdos esta vontade de ver com os dedos, e de não as poder guardar nas memórias da máquina, que estas únicas duas fotografias foram desfocadas do frio lá de fora pela montra da galeria.

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

ais

À próxima pessoa que me disser Ai que lindo!, Ai que engraçado!, Ai eles são tão giros nesta fase!, Ai tenho tantas saudades de quando os meus filhos eram pequeninos e gatinhavam e estavam a aprender a andar!, peço a morada e despejo lá a criança aventureira e mexilhona cinco tardes seguidas.

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

museu do azulejo


Um destes domingos abrigámo-nos da chuva no Museu do Azulejo.

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

vezes dois

Não, não é mais difícil ser mãe de dois do que só de um. Para além dos amores duplicam-se os cansaços, a falta de tempo e a roupa suja no cesto. Tudo o resto é igual.