segunda-feira, 5 de março de 2007

de todos os dias

Vivo descalendarizada. A ausência de um nove às cinco ou de um dez às sete ou de qualquer outra combinação horária faz com que quarta ou sábado seja a mesma coisa. Antes ainda me regia pelas impossibilidades dominicais de pagamentos e compras (ó terrinha pequena...) mas os débitos directos e os on-lines e um hiper a meia hora de carro contribuiram ainda mais para a baralhação. Nunca sei muito bem que dia é hoje. Quer dizer, sei que é dia de pediatra ou de parque ou de compras ou de desenhos. O meu calendário não marca a sequência dos dias, marca os trabalhos e as brincadeiras. É que o meu filho, para além de estar em casa aos sábados, domingos e feriados, também cá está nos outros todos. Baralha os dias da semana, baralha-se com os meses e as estações do ano e baralha-me as organizações. Para diminuir as confusões, marco-nos horários e cumpro-nos rotinas. Almoço, sesta, banho e jantar a horas certas, televisão antes de comer, pinturas e plasticinas de manhã, compras a seguir, escorrega, baloiço e triciclo à tarde. Mais ou menos e não necessariamente por esta ordem, que não me sinto muito formiga e não acredito em militarismos rígidos e inflexíveis, nem na educação nem na vida. Apenas o suficiente para o miúdo se sentir estável, para eu ter horas minhas e para os inesperados serem excepções felizes.
Cumpro muito facilmente algumas destas repetições diárias, outras forço-me a cumprir. Acho que a que me agrada mais e a que me dá mais prazer rotinar é a estória antes de dormir. Falha-me a idade dos começos. Houve várias tentativas, sempre sem final feliz, porque ele não parava, não se calava, não ouvia, mexia nos livros, atirava-os ao ar, passava as páginas a correr... Eu, que me lembro sempre de mim com livros, desgostava-me um bocadinho com tanta desatenção e tanto desprazer, e insistia. Nisso acredito, nas insistências e paciências, na educação e na vida. Começou a acalmar-se, a ouvir com atenção e a pedir outa vez, mais uma vez, até ter que ser eu a argumentar com os muito tarde e os já passa tanto da hora de dormir. E aí ele pedinchou a estória também antes da sesta. Achei justo esse acrescento aos gestos diários, os era uma vez a embalar-lhe igualmente os sonhos da tarde. E merecido. Porque o meu filho, que tem tantas dificuldades nos sossegos e nos silêncios, fica atento e interessado, à tarde e à noite. E pede sempre mais uma vez. E diz Eu góto muito de livlos. E isso é mil vezes mais importante do que almoçar sempre à mesma hora ou saber que hoje é segunda-feira...

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