sábado, 10 de março de 2007

tem cuidado ó carolina que o simão não te larga


A incauta andava a passear-se pelo muro ao pé das tartarugas enquanto eu estendia roupa e ele tricicletava. Olha! Um caracol gigante! É uma caroleta! É uma caroleta!, uma gritaria de fazer doer os ouvidos e o juízo. Posso ficá com ela? Posso levá-la pa casa, ser o dono dela? Posso? Posso? Posso? Po favor?...A gritaria desalmada, eu até devia era escrever isto tudo em maiúsculas, a cabeça a começar a latejar-me, disse-lhe que sim para o silenciar. Posso chamá-lhe Carolina? É nome de pessoa mas não faz mal, pois não, mãe? Fica bem, não achas, mãe? Caroleta Carolina! É um nome bonito, não é, mãe? Uma verborreia ainda mais desenfreada do que a costumeira. Mais um bicho em casa, toca de arranjar frasco grande, Tens que a pôr dentro de alguma coisa, não a quero por aí a rastejar e a deixar viscosidades por todo o lado!, O que é ratejar? O que é vicosi... vicosides, mãe?, e eu a insistir E tens que lhe dar comida e tu é que tens que tratar dela, O que é que ela come? Eu tato, eu sou o dono dela, eu sou bom dono, e toca de arranjar folhinhas e ervinhas. Cheio de impaciências e excitações, não o achei capaz de mais do que dia e meio à volta de tamanha lentidão, Isto amanhã está farto e a caracoleta volta para o quintal. Enganei-me. Vai ver se já comeu. Põe-lhe mais comida. Vai ver se está a dormir. Faz-lhe festinhas. Anda com ela na mão, Já viste os olhinhos, mãe? Saiem! Já viste as ondinhas quando rateja? Dá-lhe beijinhos. Faz-lhe cócegas. Põe a voz fininha para monodialogar com ela. Leva o frasco para a mesa. E canta-lhe A saia da Carolina tem um lagato pintado... desafinadíssimo mas com a letra toda certinha. É a caroleta Carolina para aqui, a Carolina caroleta para ali. E eu, que tinha o discurso da liberdade e do mundo lá fora preparado, emudeci perante tanta calmaria e cuidado...

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